Nos grandes jornais diários, o percentual de receita em vendas de exemplares corresponde, em média, a 85% de assinaturas e 15% de vendas em banca. Apesar de representar a minoria, os jornais vivem criando estratégias (bem repetitivas) para aumentar a venda isolada em banca – como os “anabolizantes”, fascículos que acompanham os jornais e que trazem um aumento bem pontual nas vendas. Mas o fato é que a primeira página de um jornal (ou capa) é decisiva para que o leitor escolha um ou outro veículo. Disso todo editor sabe.
Estou dizendo tudo isso porque hoje, numa comparação, eu compraria o Estadão no lugar da Folha.
De um lado, o Estadão trouxe uma manchete de uma matéria rica e inusitada sobre prostituição infantil na rodovia Dutra – assunto comum e pouquíssimo explorado (menos ainda num destaque de primeira página, que só costuma trazer o factual).
De outro lado, a Folha manchetou um grandessíssimo deslize. Dizia: “Após queda, passagem de avião vai aumentar”. Fiz um teste e perguntei para várias pessoas, de várias áreas, o que se entendia pela palavra “queda” da manchete. “Queda do avião, claro. Não é isso?”, responderam-me. O trocadilho, nitidamente sem querer, foi infame e conduziu o leitor desavisado a remeter à queda do avião da FAB, que aconteceu há apenas alguns dias. Mas a queda era de preços.
O lado bom dessa história foi a diversidade encontrada hoje nas primeiras páginas. Quase todos os dias, deparo-me com capas tão iguais que quase não se distingue qual é um jornal e qual é o outro. Hoje, o Estadão fez claramente uma experimentação de uma grande reportagem sobre um assunto cotidiano, não factual e extremamente pertinente. Que continue assim.