Mídia e mais

um blog da jornalista Sabine Righetti

Quando a primeira página faz a diferença.

Publicado por sabine righetti em 04/11/2009

Nos grandes jornais diários, o percentual de receita em vendas de exemplares corresponde, em média, a 85% de assinaturas e 15% de vendas em banca. Apesar de representar a minoria, os jornais vivem criando estratégias (bem repetitivas) para aumentar a venda isolada em banca – como os “anabolizantes”, fascículos que acompanham os jornais e que trazem um aumento bem pontual nas vendas. Mas o fato é que a primeira página de um jornal (ou capa) é decisiva para que o leitor escolha um ou outro veículo. Disso todo editor sabe. 

Estou dizendo tudo isso porque hoje, numa comparação, eu compraria o Estadão no lugar da Folha.

De um lado, o Estadão trouxe uma manchete de uma matéria rica e inusitada sobre prostituição infantil na rodovia Dutra – assunto comum e pouquíssimo explorado (menos ainda num destaque de primeira página, que só costuma trazer o factual).

De outro lado, a Folha manchetou um grandessíssimo deslize. Dizia: “Após queda, passagem de avião vai aumentar”. Fiz um teste e perguntei para várias pessoas, de várias áreas, o que se entendia pela palavra “queda” da manchete. “Queda do avião, claro. Não é isso?”, responderam-me. O trocadilho, nitidamente sem querer, foi infame e conduziu o leitor desavisado a remeter à queda do avião da FAB, que aconteceu há apenas alguns dias. Mas a queda era de preços.

O lado bom dessa história foi a diversidade encontrada hoje nas primeiras páginas. Quase todos os dias, deparo-me com capas tão iguais que quase não se distingue qual é um jornal e qual é o outro. Hoje, o Estadão fez claramente uma experimentação de uma grande reportagem sobre um assunto cotidiano, não factual e extremamente pertinente. Que continue assim.

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A notícia do jornal online não é mais notícia no jornal impresso.

Publicado por sabine righetti em 26/10/2009

Aplausos para o pessoal do caderno Link do Estadão (que, aliás, completa 5 anos!) Hoje eu peguei o jornal na minha garagem certa de que o caderno traria alguma matéria com uma manchete do tipo: “Biz Stone visita o Brasil e fala sobre o Twitter”. Mas eu me enganei, para a minha sorte e para a sorte dos demais leitores. O Link trouxe uma espécie de perfil do criador do Twitter, abordando sua passagem pelo Brasil, mas com foco na sua personalidade. Genial. Veja a matéria aqui.

Digo isso porque o jornal impresso – ainda mais um caderno semanal de um jornal impresso, como o Link, – não pode mais se ater à veiculação de notícias factuais. Quando os jornais em papel chegam às mãos do leitor, a notícia não é mais notícia. Eu já sabia que Biz Stone passou pelo Brasil. Vi isso na TV, na internet – no próprio Twitter! Assim como eu já sabia que Michael Jackson havia morrido na tarde do dia 25 de junho, cuja notícia foi veiculada praticamente em tempo real, quando recebi o jornal impresso do dia seguinte com a manchete estampada: “Morre Michael Jackson”. Poxa, gente! Isso já não era mais a notícia. É preciso pensar em algo diferente do factual.

A matéria do caderno Link de hoje, na contramão do exemplo da cobertura da morte do Michael Jackson, mostra que jornais online e impressos devem trabalhar juntos: o primeiro com o factual e o segundo com um texto mais profundo e caprichado. Esse é o único jeito do jornal em papel sobreviver antes que os leitores desistam dele.

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E os cientistas continuam malucos. Pelo menos os do cinema.

Publicado por sabine righetti em 13/10/2009

Hoje fui assistir “Tá Chovendo Hambúrguer”, uma animação da Sony sobre um cientista que cria uma máquina que transforma água em comida e, com ela, promove chuvas de hambúrgueres e de outras guloseimas. O que tem de novo no filme é a exibição em 3D (aliás, foi o primeiro 3D que vi no cinema e fiz a inauguração na tela gigante do Imax. Fantástico!) E o que tem de velho é que o cientista da história, como era de se esperar, é retratado como um cara maluco, solitário, descabelado e considerado “estranho” por toda a sociedade. 

Essa imagem do cientista já era de “se esperar” porque o cientista tem sido estereotipado no cinema talvez desde que o cinema existe. Quer exemplos claros e recentes? O cientista de “De volta para o Futuro” (1, 2 e 3) era um cara cuja fisionomia lembrava muito a de Einstein: cabelos brancos esvoaçantes, olhar perdido, solitário. O mesmo acontece com o cientista de “Homem-aranha”, que quase destrói o mundo na tentativa de construir uma super máquina fonte de energia. Aliás, nesses filmes, o cientista sempre “quase” destrói o mundo e, ao final da história, salva a humanidade da destruição que ele própria iria causar.

Mas não apenas os cientistas são alvos da estereotipação. A jornalista-apresentadora-do-tempo, de “Tá Chovendo Hambúrguer”, é uma loira bonita. No meio do filme, ela revela-se uma mulher inteligente e grande conhecedora de meteorologia. No momento da transformação, ela automaticamente se enfeia: ganha óculos fundo-de-garrafa e prende os cabelos. Como disseram na história, ela “vira nerd”. Pessoas inteligentes são feias?

O uso de imagens como estereótipos é um artifício comum na comunicação, como disse uma vez em entrevista o pesquisador de semiótica Luciano Guimarães, da Unesp (leia aqui a minha reportagem sobre a mistificação de Einstein, que traz tal entrevista). E o problema de reforçar alguns estereótipos é que se cria uma imagem acerca de pessoas ou profissões que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Será que alguém parou para pensar que cientistas não necessariamente têm grandes idéias? Que na maioria das vezes eles não querem destruir nem salvar o mundo, que boa parte deles constitui família e que eles não precisam viver em laboratórios? No Brasil, a maioria dos nossos cientistas, por exemplo, vêm da área de humanas: 70% dos 10 mil novos doutores/ano são de humanas. Será que as crianças que estavam no cinema lembraram que historiadores, antropólogos e sociólogos também são cientistas?

A parte que me deixou feliz de “Tá Chovendo Hambúrguer” é que o estereótipo da jornalista é o de uma mulher bonita (hehe). Mas considerando que sou uma jornalista e uma cientista… devo ser uma coisa bem bizarra. Pelo menos aos olhos de um cineasta norte-americano!

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Em terra de discussões unilaterais, quem traz os dois lados é rei.

Publicado por sabine righetti em 27/09/2009

Já critiquei aqui no blog muitas matérias jornalísticas que trouxeram apenas uma análise de uma questão e deixaram de consultar a outra ou outras versões da mesma história. Isso não significa entrevistar a mocinha e o bandido, mas significa trazer análises prós e contras sobre uma mesma questão. Por exemplo numa nova lei, deve-se consultar o relator e a oposição. Numa inovação tecnológica, fala-se com os empresários do setor, com consumidores do produto e, se for o caso, com entidades ligadas à análise dos impactos daquele produto. É preciso analisar um mesmo assunto sob vários pontos de vista.

Escrevo tudo isso para elogiar uma matéria da Folha de hoje, sobre humanização dos abates de animais. A discussão é extremamente pertinente e carente na mídia. E o texto trouxe duas análises distintas, de uma veterinária que defende e apóia a humanização e de uma ativista que considera que a humanização do abate não leva em conta questões ambientais e de saúde ligadas à produção e ao consumo de carne. Veja aqui.

A discussão dá subsídios para o leitor se posicionar e cumpre, afinal, o papel do jornalismo que é o de informar. Apresentando duas vertentes de uma mesma questão, chega-se mais perto da imparcialidade. O texto torna-se menos tendencioso, mais objetivo e se aproxima do ideal que aprendemos a perseguir na faculdade mas que, no dia a dia, quase nunca se observa na grande mídia.

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Ciência: quão nova a novidade é?

Publicado por sabine righetti em 25/09/2009

Eu sempre digo que o jornalista de ciência precisa conhecer os meandros do mundo acadêmico, o funcionando da coisa, os métodos de avaliação da atividade científica, a política envolvida. Caso contrário, vira massa manipulável. Digo isso porque outro dia me perguntaram: como saber se uma pesquisa é nova mesmo ou se já existe muita coisa parecida sendo feita por aí? Ou seja: se um cientista liga para um jornalista dizendo que tem uma grande novidade, como o coitado do jornalista faz para saber quão nova a novidade é? Simples: é preciso conhecer a prática científica e investigar.

Em primeiro lugar, novidade que é novidade na ciência é sempre publicada primeiro em artigo científico, em uma revista indexada, avaliada pelos pares (outros cientistas). Só depois de publicada, é que a novidade se torna, como o próprio nome diz, “pública”, e aí pode ir para a imprensa. Se um cientista ligar para você dizendo que a grande novidade dele está no prelo (em avaliação pela revista científica) duvide. Pode ser rolo!

Vale apurar também quando ouvir termos do tipo “sou o primeiro cientista a estudar tal coisa”, “somos o primeiro grupo a desenvolver isso no Brasil”. Uma boa dica é consultar, in off, e como quem não quer nada, outro grupo de cientistas da mesma área. Normalmente o que se escuta é: “tal coisa é estudada no Brasil faz tempo, desde o fulano de tal”. Aí, você pondera a afirmação bombástica com tom de inovação que iria colocar no seu texto.

Cuidado com o que não tiver provas! Uma vez fiz uma matéria sobre uma técnica desenvolvida numa empresa e um pesquisador de uma universidade me ligou dizendo que o gerente daquela empresa roubou a ideia dele. Não se meta na confusão! Como saber quem está falando a verdade? Para a comunidade científica, o “dono” da ideia é quem lançou primeiro a inovação – nesse caso, a empresa. Na dúvida, deixe a pauta de lado.

Importante: não acredite na neutralidade da ciência! Não veja a ciência como uma luz no escuro, parafraseando Carl Sagan. A atividade científica, como outra qualquer, é feita de interesses pessoais e financeiros, egos, instintos, ambições. O cientista não é Deus e, na maioria das vezes, não é um gênio: é apenas um ser humano interessado numa questão que lhe intriga. Não acredite que tudo que um cientista te diz é verdade e que ele é dotado apenas de boas intenções…

Finalizo com uma frase genial que ouvi recentemente: toda ciência é temporária. Por isso, uma grande descoberta hoje pode ser desmoronada por uma nova grande descoberta amanhã. Saiba que você está escrevendo sobre algo que muda tão rápido quanto possível – e muda tanto que pode gerar novos ciclos de compreensão das coisas e do mundo (a “revolução científica” de Thomas Kuhn). Saiba interpretar quando está diante de uma verdadeira revolução.

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