
Hoje Eugênio Bucci publicou, no Estadão, o artigo Eu sou um excluído digital, basicamente comentando o novo livro de Andrew Keen – O culto do amador (não coloco o link do artigo aqui porque está quebrado – li no papel mesmo!) O livro aborda como blogs e outras ferramentas recentes da internet – como MySpace, Youtube e outros – estariam, sob o guarda-chuva do discurso da “democratização”, destruindo a economia, a cultura e os valores, já que dão espaço aos amadores e tiram espaço dos profissionais.
Pois bem.
Antes de falar do texto de Bucci, adianto que não concordo com essa ideia nostálgica e quase sindicalista de Keen sobre a internet. Dar espaço aos amadores, por exemplo, na música, não é exatamente um problema – no meio dos amadores surgem muitos profissionais que, provavelmente, não teriam aparecido sem a internet (Mallu Magalhães?)
E já existem estudos que mostram que as bandas mais baixadas da internet têm aumento na venda dos seus álbuns (e não queda). Trata-se de uma forma de divulgação sem precendentes (eu mesmo, brincando de DJ, já encontrei músicas na net que eu jamais teria acesso – e depois acabei comprando o álbum).
O texto de Bucci sobre o livro centra-se em três principais argumentos – pelo menos na minha leitura – que comento a seguir.
1. Internet x a crise do jornalismo impresso
Bucci diz que as redações estão tentando sobreviver e encolhendo as suas redações por causa da internet. Aí mexeu no meu calo! Eu mostro na minha pesquisa do mestrado, que foi exatamente sobre esse tema, que a crise do jornalismo impresso é anterior à internet e que a nova mídia apenas acelerou a crise que já estava instalada. Bucci escreve que os jornais impressos enfrentam “dificuldades diante da oferta esmagadora de informações na rede”. De fato, hoje as redações correm mais atrás da informação que já está circulante do que da informação nova. Sobre esse fenômeno, o Jornal da USP trouxe recentememte uma boa matéria abordando a necessidade de mudança da grade dos cursos de jornalismo para atender as novas características do jornalismo (leia aqui). O MEC, inclusive, já criou uma comissão para isso. E não acho isso negativo! Blogs, hoje, são excelentes fontes de informações para as redações, se bem aproveitados (por exemplo no caso das guerras, quando a população local divulga informações pela internet. Isso aconteceu recentemente, na ocupação de Israel à Faixa de Gaza, no final do ano passado – escrevi sobre esse fenômeno ).
2. Internet x inclusão digital
Bucci diz, logo no título do artigo, que não se sente incluído. Para ele, e eu concordo, não basta ter um computador para estar incluído – diferente do que acontece com o acesso a outros meios de comunicação (a TV, por exemplo, ou se tem ou não se tem. E ponto!) Além disso, o potencial de interatividade da internet vai muito além da capacidade da maioria de seus usuários. Muitos autores falam ainda da questão do “analfabetismo digital” e usam esse argumento para criticar programas públicos de inclusão que apenas facilitam o acesso da pessoa ao computador. Mas ninguém sabe como a pessoa usa esse computador, se ela realmente aproveita a interatividade em portencial etc.
3. Internet x democratização
Bucci chama o acesso à informação propiciado pela internet de banalização e não de democratização. De fato, é importante ressaltar que, em um país como o Brasil, em que, em dados otimistas apenas 30% da população tem acesso à rede, não se pode falar em democratização de nada: o acesso continua na elite. No entanto, para quem tem acesso, há um processo de democratização sim, principalmente na área política. Hoje é possível acomoanhar de perto e participar da política como nunca foi possível (também já escrevi sobre isso aqui no blog). E isso não é banal!
Posso ser otimista – e dizem que sou-, mas continuo acreditando que a internet está sendo demonizada demais. E quem souber usá-la a ser favor pode se dar muito bem. Ontem mesmo descobri que há uma padaria que avisa, pelo twitter, quando sai a fornada de pão quentinho. É uma boa solução, aceitando-se que não se pode mais lutar contra a internet. Melhor é juntar-se a ela.

