Mídia e mais

um blog da jornalista Sabine Righetti

Posts de Abril, 2009

Internet, a alma do capeta.

Publicado por sabine righetti em 09/04/2009

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Hoje Eugênio Bucci publicou, no Estadão, o artigo Eu sou um excluído digital, basicamente comentando o novo livro de Andrew Keen – O culto do amador (não coloco o link do artigo aqui porque está quebrado – li no papel mesmo!) O livro aborda como blogs e outras ferramentas recentes da internet – como MySpace, Youtube e outros – estariam, sob o guarda-chuva do discurso da “democratização”, destruindo a economia, a cultura e os valores, já que dão espaço aos amadores e tiram espaço dos profissionais.

Pois bem.

Antes de falar do texto de Bucci, adianto que não concordo com essa ideia nostálgica e quase sindicalista de Keen sobre a internet. Dar espaço aos amadores, por exemplo, na música, não é exatamente um problema – no meio dos amadores surgem muitos profissionais que, provavelmente, não teriam aparecido sem a internet (Mallu Magalhães?)

E já existem estudos que mostram que as bandas mais baixadas da internet têm aumento na venda dos seus álbuns (e não queda). Trata-se de uma forma de divulgação sem precendentes (eu mesmo, brincando de DJ, já encontrei músicas na net que eu jamais teria acesso – e depois acabei comprando o álbum).

O texto de Bucci sobre o livro centra-se em três principais argumentos – pelo menos na minha leitura – que comento a seguir.

1. Internet x a crise do jornalismo impresso
Bucci diz que as redações estão tentando sobreviver e encolhendo as suas redações por causa da internet. Aí mexeu no meu calo! Eu mostro na minha pesquisa do mestrado, que foi exatamente sobre esse tema, que a crise do jornalismo impresso é anterior à internet e que a nova mídia apenas acelerou a crise que já estava instalada. Bucci escreve que os jornais impressos enfrentam “dificuldades diante da oferta esmagadora de informações na rede”. De fato, hoje as redações correm mais atrás da informação que já está circulante do que da informação nova. Sobre esse fenômeno, o Jornal da USP trouxe recentememte uma boa matéria abordando a necessidade de mudança da grade dos cursos de jornalismo para atender as novas características do jornalismo (leia aqui). O MEC, inclusive, já criou uma comissão para isso. E não acho isso negativo! Blogs, hoje, são excelentes fontes de informações para as redações, se bem aproveitados (por exemplo no caso das guerras, quando a população local divulga informações pela internet. Isso aconteceu recentemente, na ocupação de Israel à Faixa de Gaza, no final do ano passado – escrevi sobre esse fenômeno ).

2. Internet x inclusão digital
Bucci diz, logo no título do artigo, que não se sente incluído. Para ele, e eu concordo, não basta ter um computador para estar incluído – diferente do que acontece com o acesso a outros meios de comunicação (a TV, por exemplo, ou se tem ou não se tem. E ponto!) Além disso, o potencial de interatividade da internet vai muito além da capacidade da maioria de seus usuários. Muitos autores falam ainda  da questão do “analfabetismo digital” e usam esse argumento para criticar programas públicos de inclusão que apenas facilitam o acesso da pessoa ao computador. Mas ninguém sabe como a pessoa usa esse computador, se ela realmente aproveita a interatividade em portencial etc.

3. Internet x democratização
Bucci chama o acesso à informação propiciado pela internet de banalização e não de democratização. De fato, é importante ressaltar que, em um país como o Brasil, em que, em dados otimistas apenas 30% da população tem acesso à rede, não se pode falar em democratização de nada: o acesso continua na elite. No entanto, para quem tem acesso, há um processo de democratização sim, principalmente na área política. Hoje é possível acomoanhar de perto e participar da política como nunca foi possível (também já escrevi sobre isso aqui no blog). E isso não é banal!

Posso ser otimista – e dizem que sou-, mas continuo acreditando que a internet está sendo demonizada demais. E quem souber usá-la a ser favor pode se dar muito bem. Ontem mesmo descobri que há uma padaria que avisa, pelo twitter, quando sai a fornada de pão quentinho. É uma boa solução, aceitando-se que não se pode mais lutar contra a internet. Melhor é juntar-se a ela.

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Che – parte um é bom, mas cansativo e mitificado.

Publicado por sabine righetti em 08/04/2009

Assisti, finalmente, Che – parte um, filme autobiográfico euro-estadunidense sobre o argentino (interpretado por um ator porto-riquenho) que comandou, na década de 50, a revolução cubana. Uma salada de nacionalidades.

Benício del Toro, o Che do filme, teve uma atuação fantástica, como era esperado do ator que despertou atenção internacional em Traffic (2000), do mesmo direitor de Che – parte um (Steven Soderbergh). E interpretar Che Guevara é um grandessíssimo desafio – o risco de Benício ser esmagado pela intensidade e pela memória do personagem em questão – um dos maiores revolucionários de todos os tempos – era grande. O Che de Benício não é assim um Milk de Sean Penn, mas convence (considerando, principalmente, que Milk era uma personalidade pouco conhecida fora do EUA e Sean praticamente construiu a sua memória). E convence bem.

 

O filme de Che traz a visão de um homem heróico, politicamente correto, que caminhava quilômetros montanhas acima, mesmo sendo asmático, carregando feridos em batalhas (a regra era não os deixar para trás). São longos minutos subsequentes com essas cenas. Aliás, o filme todo tem longas cenas no cenário da floresta, o que o torna cansativo para determinados públicos (bem diferente da abordagem lúdica de Diários de Motocicleta, 2004, sobre a viagem que Che fez pela América Latina – e que o motivou para a revolução). Che, o do filme, era perfeito. E não digo que o Che real não o fosse (ele é um dos meus maiores ídolos!) Mas, no cinema, e nas artes em geral, é preciso tomar um certo cuidado com a mitificação daquele que, afinal, era um ser humano.

Mas até aí, tudo bem.

O filme pecou de verdade em outras partes. Fidel Castro aparece e desaparece do filme como o coelhinho de Alice no país da maravilhas (aquele que corre dizendo “é tarde, é tarde…”). Passa correndo e some. Aliás, quando fica decidido que, afinal, Fidel seria o chefe de todas as guerrilhas contra o ditador cubano Batista, Fidel some de vez do filme. Para onde ele teria ido?

E o irmão de Fidel, Raul Castro (hoje presidente cubano), some junto com ele. Interpretado pelo nosso Rodrigo Santoro, o personagem de Raul deixou a desejar. Não pela atuação de Rodrigo que, aliás, é muito boa (apesar do espanhol carregado de acentos portugueses). Mas aquele Fidel barbudo ao lado do Che igualmente barbudo, perdidos no meio da floresta, pareciam não combinar com um Raul bonitão e de barba praticamente feita. Em outras palavras, eu diria que a beleza de Santoro atrapalhou.

A crítica completa de Che – parte um deve ser feita quando finalmente sair a parte dois. Mas, por enquanto, o filme vale principalmente para divulgar uma história que muita gente sabe que existiu, mas pouca gente sabe exatamente o que foi.

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Os terremotos anuais e o da Itália.

Publicado por sabine righetti em 06/04/2009

Hoje, logo após a notícia do terremoto na Itália que atingiu escala 6,8 na escala richter, eu tive que sair de carro e, como sempre, fui ouvindo CBN (Jornal da CBN, 2a edição). Achei muito bacana a cobertura que deram do fenômeno e a agilidade do levantamento de informações. Conseguiram sair da mesmice com informações relevantes.

O jornalista (não lembro o nome, sorry!), para dimensionar para o ouvinte o quão forte é um terremoto com escala richter 6,8 , explicou que a escala vai de zero a dez e que dez significaria um terremoto tão intenso que poderia dividir o planeta. Ele também falou que um terremoto em escala 6,8 pode atingir regiões em um raio de até 100km do epicentro – por isso Roma também sentiu os tremores.

Isso tudo parece óbvio e redundante, mas não é. Todo mundo ouve falar da escala richter mas dificilmente alguém saberia explicá-la. É a tal da “disfunção narcotizante”, um termo usado para definir um fenômeno muito comum causado pela mídia. A disfunção acontece quando a repetição de uma informação é tão frequente (“narcotizante”) que todo mundo acha que sabe o que é a coisa. Mas não sabe. Uma disfunção – ou um desserviço.

A CBN deu também uma informação que eu, que cubro ciência, não conhecia: acontecem uma média de 120 terremotos anuais no mundo com escala semelhante ao que aconteceu hoje na Itália (entre 6,0 e 7,0). Então fiquei pensando: a mídia não cobre 120 terremotos desse porte por ano! Ou esses terremotos acontecem em áreas não habitadas (antártida? desertos? florestas?) ou acontecem em áreas que não interessa divulgar. Regiões que, enfim, “não são assim uma Itália”…

ps’ e se alguém tiver o nome do jornalista dessa matéria, por favor me mande! Não localizei no site da CBN. E fica feio deixar o post assim.

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O nariz-de-cera nosso de cada dia.

Publicado por sabine righetti em 01/04/2009

Já escrevi certa vez aqui no blog que sou a favor de nariz-de-cera – aquela introdução breve que contextualiza um fenômeno e inicia um texto de maneira mais leve e menos “direto ao ponto” (veja). O lide (primeiro parágrafo) com nariz-de-cera, desde que muito bem feito, sem clichês, é um convite para o receptor da informação continuar a leitura de forma empolgante. E a vantagem maior do nariz-de-cera é que ele é único e diferencia o seu texto dos demais. Não hevará outro igual, com cara de texto saído de uma das máquinas de Henry Ford. O seu texto será único.

Mando abaixo um exemplo de lide com nariz-de-cera em um texto publicado ontem pela jornalista que trabalha comigo (Erica Guimarães). O texto é sobre o lançamento do Museu de Ciências Catavento e o lide contextualiza a importância do museu num cenário em que os jovens não aprendem ciências na escola como deveriam e não se interessam por ciência. Veja:

O ensino de ciências para crianças e adolescentes tem despertado cada vez mais a atenção de governantes de todo o mundo. E no Brasil não faltam motivos para o poder público se preocupar com a questão. Recentemente, os resultados dos brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) – a mais completa avaliação internacional para a educação – mostra o Brasil em 52º na categoria ensino de ciências. O Brasil também tem observado uma queda na busca pela carreira científica: na maior universidade pública do país – a USP – a procura por cursos de formação de professores, incluindo os de ciências (como matemática, química e física), declinou à metade no último vestibular.

Diante desse cenário, especialistas em educação enfatizam a necessidade de incentivar os jovens para as ciências, de preferência de maneira interativa, lúdica e divertida. O Museu Catavento, inaugurado na última quinta-feira (26) pelo Governador de São Paulo, José Serra, é uma resposta… (continue lendo).

Agora veja um lide de um release nada criativo e nem estimulante que recebi hoje:

Acontece no próximo dia 07 de abril, terça-feira, o Seminário Governança
e Comunicação de Risco. O evento será realizado no auditório XX da Universidade XX, às 14 horas, e contará com a participação de FULANO e BELTRANO.

(Com alterações das informações para não comprometer ninguém!)

Tudo bem que release e matéria jornalística são coisas bem diferentes, mas o princípio – de informar e atrair o leitor – é o mesmo. Por isso, se houver espaço e se o jornalista tiver tempo e criatividade, vale investir no nariz-de-cera. É a única maneira de sair da mesmice!

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