Mídia e mais

um blog da jornalista Sabine Righetti

Posts de Junho, 2009

O nosso olhar masculino sobre as coisas.

Publicado por sabine righetti em 29/06/2009

olharTodo repórter, assim como todas as pessoas, tem uma série de idéias pré-concebidas e dialéticas sobre tudo: o que é bom ou mau, caro ou barato, feio ou bonito, normal ou anormal, conservador ou revolucionário etc. E ele vai escrevendo seus textos a partir dessas idéias. Da mesma maneira, dividimos as coisas entre “coisas de mulher” e “coisas de homens”, de modo que quando um homem faz algo que está no quadradinho “coisas de mulher”, ou vice-versa, isso se torna destacável num texto jornalístico. Vira uma informação. E qual é o problema disso? O problema é que esse nosso olhar sobre o que é de mulher ou de homem, usualmente, é bem machista.

Vejamos. A última edição da revista Veja trouxe, como era esperado, uma grande matéria de capa sobre a morte de Michael Jackson. Certa hora, lá no meio do texto, apareceu a seguinte informação, mais ou menos assim: “Michael Jackson se casou com uma enfermeira sem graça, que gosta de motocicletas e é boa de copo”. Opa! Tem algo estranho aqui. Como diria uma professora de antropologia que me deu aula na faculdade, vamos “destrinchar” essa frase (aparentemente tão inocente):

- “Gosta de motocicletas”. Gostar de motos, na idéia pré-concebida da repórter, e da maioria das pessoas, é coisa de homem. Máquinas são coisas de homens (e eu, que sou jipeira, sei bem o tratamento que recebo por gostar de carro!). Uma mulher, enfermeira, que gosta de moto causa estranhamento. A informação torna-se destacável no texto e, indo além, dá corpo e forma ao “sem graça” mencionado anteriormente. Vale destacar que no Brasil, 1/3 dos motociclistas são mulheres, ou seja, motos já são uma realidade feminina. Mas não se trata, aqui, de simplesmente ter uma moto (que até pode ser coisa de mulher), mas sim de gostar de moto. Viram a diferença?

- “Boa de copo”. Novamente o olhar masculino sobre as coisas. Homens que bebem são considerados “normais” porque beber é tido como um ato masculino (até os homens que bebem e espancam as mulheres são normais – ainda tem que diz: “ah, mas ele estava bêbado, por isso bateu!”) Mas mulher beber é uma aberração, a menos que seja um vinho, um choppinho para acompanhar os amigos (ou o marido) ou uma bebida doce (daquelas que deixam a mulher sexy). Ser “boa de copo” é nitidamente uma crítica.

Por isso, pode parecer neurose ou uma coisa exaustivamente trabalhosa, mas vale sempre pensar de onde se está tirando o que se escreve. Eu escrevo algo que alguém me disse ou tomo como base idéias que, intrinsecamente, podem ser pra lá de preconceituosas? Fica a questão.

E, ah, em tempo: os autores do texto de Veja são repórteres mulheres. Isso mostra que o olhar masculino não é dos homens, mas da sociedade.

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Michael Jackson. É claro.

Publicado por sabine righetti em 26/06/2009

michael_jackson_É claro que hoje eu não poderia deixar de falar da morte de Michael Jackson – ainda mais sendo eu uma ex-pseudobailarina, daquelas que ficavam coladas na TV babando nos passos dele. Michael fez muito parte da minha infância/adolescência! Mas, sobretudo, considerando o tema do meu blog, tenho que falar de Michael por causa da repercussão incrível que sua morte teve na mídia.

Os principais jornais do país trouxeram o assunto em destaque na primeira página e deram, internamente, uma média de duas páginas inteiras com o factual da morte, artigos de especialistas falando sobre ele, episódios marcantes da vida do astro, fotos, cronologias etc. Tudo bem que o fato dele ter morrido à tarde e não à noite, por exemplo, “facilitou” a vida dos jornalistas e a preparação dos dossiês sobre o astro (credo, parece cruel essa afirmação! Mas quero dizer que as redações tiveram um tempo para se articularem e prepararem uma boa edição para o dia seguinte).

Não vou criticar o enorme espaço que a morte de Michael teve na mídia, por mais criticável que seja sempre a escolha de prioridades noticiosas dos jornais. Mas um astro pop que teve o disco mais vendido de toda a história – Thriller, 120 milhões de cópias – merece esse espaço. Ele influenciou a mídia, a moda, a indústria, o cinema. Querem ver? Tomem um exemplo que ilustra a enorme influência de Michael: Wedding Thriller Dance (são 3 minutos, vale muito a pena assistir!)

Michael também é um exemplo real do que a loucura da estética ou, pior, a loucura do preconceito racial podem fazer com uma pessoa. Ele fez bizarrices para parecer branco, cada vez mais branco. Até o ponto que ele próprio não se reconhecia mais. Isso é bem triste.

Enfim, é uma pena que tanto espaço de Michael na mídia não foi para anunciar sua nova turnê ou um show programado para o Brasil. Perdi o Dangerous Tour Brasil de 1993 (tinha 12 anos, meus pais não me deixaram ir) e ontem, com sua morte, perdi para sempre a oportunidade de vê-lo na sua performance única, eterna, polêmica e incompreensível.

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Amanhã tem Selton Melo em dose dupla

Publicado por sabine righetti em 25/06/2009

seltonEstreiam amanhã dois filmes nacionais com Selton Melo: “Jean Charles” e “A Erva do Rato”. E, como disse Luiz Zanin, crítico do Estadão, mais diferentes entre si não poderiam ser. “Jean Charles”, filme coproduzido pelo Brasil e a Inglaterra, tem Selton Mello no papel principal e aborda a história do brasileiro assassinado pela polícia londrina no metrô de Londres, em 2005, confundido com um terrorista.

Já  “A Erva do Rato” é um filme de Julio Bressane daqueles polêmicos, de prender a respiração. Como todo diretor, Bressane também tem sua pupila e traz de novo Alessandra Negrini no elenco (ela esteve também em “Cleópatra”, filme de 2007 vaiado pelo público mas vencedor da 40ª edição do Festival de Brasília).

Vale lembrar que Selton Melo está também nos telões desde o início de junho com “A mulher invisível”, de Claudio Torres. A comédia, bem clichê (e machista), tem Luana Piovani como a gostosona Amanda, que aparece em quase todas as cenas apenas de calcinha e sutiã. Obviamente não é meu tipo de filme (apesar de que – não posso negar – dei umas boas risadas), mas vale destacá-lo também para mostrar a incrível versatilidade de Selton Melo.

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Diante da crise, vamos falar de flores?

Publicado por sabine righetti em 24/06/2009

floresEu já escrevi aqui no blog sobre a cobertura da crise do Senado, criticada pelo presidente Lula (leia o post). De acordo com Lula, os jornalistas se precipitaram e erraram ao abordar incansavelmente a questão nas páginas dos jornais. Hoje, o assunto voltou à tona: nosso presidente defendeu novamente o presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) e disse que a “mídia prefere cobrir desgraças” – leia-se aqui: a imprensa prefere dar espaço à crise do Senado do que a outros assuntos mais “bonitinhos” (veja a matéria no O Estado de S.Paulo).

Pensando bem eu também acho que a mídia tem que parar de cobrir desgraça porque desgraça é muito chato: corrupção, desemprego, violência. Ninguém agüenta mais ler sobre isso. E tenho uma proposta para a mídia parar de cobrir desgraças: vamos acabar com as desgraças! Sim, erradicação das desgraças, já! Não vamos mais ter violência! Nada de dólar na cueca! Nepotismo? Nem pensar! Vamos acabar com as guerras, com os problemas sociais. E nada de crise econômica também, ham?

E quando isso tudo acontecer, sim, nós, jornalistas, vamos falar de flores.

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Ouvir os dois lados: a lição número 1 do jornalismo.

Publicado por sabine righetti em 23/06/2009

ouvirÉ impressionante como há jornalistas que, ao que tudo indica, faltaram na aula da primeira lição do jornalismo: ouvir os dois lados. Isso vai além das matérias policiais, em que se ouve a mocinha e o bandido: significa ouvir todas as partes envolvidas na história (e podem ser mais que duas). Ou pelo menos tentar ouvi-las. Trata-se de apuração. Digo isso com base em uma observação empírica, diríamos. Canso de ver jornalistas que publicam matérias utilizando apenas o depoimento de um cara. E isso mesmo em se tratando de uma acusação a uma instituição, uma pessoa ou sei lá o que.

Funciona assim: um cara quer queimar alguém, liga numa redação e o jornalista, ansioso, publica tudo o que o cara disse achando que está dando um furo. Mesmo que a fonte esteja falando absurdos. E, acredite: autoridades, doutores e afins dizem absurdos. O jornalista acaba se tornando massa de manobra para interesses pessoais de terceiros.

Por isso, jornalistas do Brasil, fica aqui a dica: apure. Duvide de tudo o que te digam, mesmo que a fonte pareça a mais confiável possível. E ouça todos os lados envolvidos numa história. Não vamos deixar que a imprensa seja usada descaradamente para picuinhas e interesses pessoais. A imprensa deve servir apenas os interesses da sociedade (por mais utópico que isso possa parecer…).

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