Todo repórter, assim como todas as pessoas, tem uma série de idéias pré-concebidas e dialéticas sobre tudo: o que é bom ou mau, caro ou barato, feio ou bonito, normal ou anormal, conservador ou revolucionário etc. E ele vai escrevendo seus textos a partir dessas idéias. Da mesma maneira, dividimos as coisas entre “coisas de mulher” e “coisas de homens”, de modo que quando um homem faz algo que está no quadradinho “coisas de mulher”, ou vice-versa, isso se torna destacável num texto jornalístico. Vira uma informação. E qual é o problema disso? O problema é que esse nosso olhar sobre o que é de mulher ou de homem, usualmente, é bem machista.
Vejamos. A última edição da revista Veja trouxe, como era esperado, uma grande matéria de capa sobre a morte de Michael Jackson. Certa hora, lá no meio do texto, apareceu a seguinte informação, mais ou menos assim: “Michael Jackson se casou com uma enfermeira sem graça, que gosta de motocicletas e é boa de copo”. Opa! Tem algo estranho aqui. Como diria uma professora de antropologia que me deu aula na faculdade, vamos “destrinchar” essa frase (aparentemente tão inocente):
- “Gosta de motocicletas”. Gostar de motos, na idéia pré-concebida da repórter, e da maioria das pessoas, é coisa de homem. Máquinas são coisas de homens (e eu, que sou jipeira, sei bem o tratamento que recebo por gostar de carro!). Uma mulher, enfermeira, que gosta de moto causa estranhamento. A informação torna-se destacável no texto e, indo além, dá corpo e forma ao “sem graça” mencionado anteriormente. Vale destacar que no Brasil, 1/3 dos motociclistas são mulheres, ou seja, motos já são uma realidade feminina. Mas não se trata, aqui, de simplesmente ter uma moto (que até pode ser coisa de mulher), mas sim de gostar de moto. Viram a diferença?
- “Boa de copo”. Novamente o olhar masculino sobre as coisas. Homens que bebem são considerados “normais” porque beber é tido como um ato masculino (até os homens que bebem e espancam as mulheres são normais – ainda tem que diz: “ah, mas ele estava bêbado, por isso bateu!”) Mas mulher beber é uma aberração, a menos que seja um vinho, um choppinho para acompanhar os amigos (ou o marido) ou uma bebida doce (daquelas que deixam a mulher sexy). Ser “boa de copo” é nitidamente uma crítica.
Por isso, pode parecer neurose ou uma coisa exaustivamente trabalhosa, mas vale sempre pensar de onde se está tirando o que se escreve. Eu escrevo algo que alguém me disse ou tomo como base idéias que, intrinsecamente, podem ser pra lá de preconceituosas? Fica a questão.
E, ah, em tempo: os autores do texto de Veja são repórteres mulheres. Isso mostra que o olhar masculino não é dos homens, mas da sociedade.
É claro que hoje eu não poderia deixar de falar da morte de Michael Jackson – ainda mais sendo eu uma ex-pseudobailarina, daquelas que ficavam coladas na TV babando nos passos dele. Michael fez muito parte da minha infância/adolescência! Mas, sobretudo, considerando o tema do meu blog, tenho que falar de Michael por causa da repercussão incrível que sua morte teve na mídia.
Estreiam amanhã dois filmes nacionais com Selton Melo: “Jean Charles” e “A Erva do Rato”. E, como disse Luiz Zanin, crítico do Estadão, mais diferentes entre si não poderiam ser. “Jean Charles”, filme coproduzido pelo Brasil e a Inglaterra, tem Selton Mello no papel principal e aborda a história do brasileiro assassinado pela polícia londrina no metrô de Londres, em 2005, confundido com um terrorista.
Eu já escrevi aqui no blog sobre a cobertura da crise do Senado, criticada pelo presidente Lula (
É impressionante como há jornalistas que, ao que tudo indica, faltaram na aula da primeira lição do jornalismo: ouvir os dois lados. Isso vai além das matérias policiais, em que se ouve a mocinha e o bandido: significa ouvir todas as partes envolvidas na história (e podem ser mais que duas). Ou pelo menos tentar ouvi-las. Trata-se de apuração. Digo isso com base em uma observação empírica, diríamos. Canso de ver jornalistas que publicam matérias utilizando apenas o depoimento de um cara. E isso mesmo em se tratando de uma acusação a uma instituição, uma pessoa ou sei lá o que.