Ciência: quão nova a novidade é?
Publicado por sabine righetti em 25/09/2009
Eu sempre digo que o jornalista de ciência precisa conhecer os meandros do mundo acadêmico, o funcionando da coisa, os métodos de avaliação da atividade científica, a política envolvida. Caso contrário, vira massa manipulável. Digo isso porque outro dia me perguntaram: como saber se uma pesquisa é nova mesmo ou se já existe muita coisa parecida sendo feita por aí? Ou seja: se um cientista liga para um jornalista dizendo que tem uma grande novidade, como o coitado do jornalista faz para saber quão nova a novidade é? Simples: é preciso conhecer a prática científica e investigar.
Em primeiro lugar, novidade que é novidade na ciência é sempre publicada primeiro em artigo científico, em uma revista indexada, avaliada pelos pares (outros cientistas). Só depois de publicada, é que a novidade se torna, como o próprio nome diz, “pública”, e aí pode ir para a imprensa. Se um cientista ligar para você dizendo que a grande novidade dele está no prelo (em avaliação pela revista científica) duvide. Pode ser rolo!
Vale apurar também quando ouvir termos do tipo “sou o primeiro cientista a estudar tal coisa”, “somos o primeiro grupo a desenvolver isso no Brasil”. Uma boa dica é consultar, in off, e como quem não quer nada, outro grupo de cientistas da mesma área. Normalmente o que se escuta é: “tal coisa é estudada no Brasil faz tempo, desde o fulano de tal”. Aí, você pondera a afirmação bombástica com tom de inovação que iria colocar no seu texto.
Cuidado com o que não tiver provas! Uma vez fiz uma matéria sobre uma técnica desenvolvida numa empresa e um pesquisador de uma universidade me ligou dizendo que o gerente daquela empresa roubou a ideia dele. Não se meta na confusão! Como saber quem está falando a verdade? Para a comunidade científica, o “dono” da ideia é quem lançou primeiro a inovação – nesse caso, a empresa. Na dúvida, deixe a pauta de lado.
Importante: não acredite na neutralidade da ciência! Não veja a ciência como uma luz no escuro, parafraseando Carl Sagan. A atividade científica, como outra qualquer, é feita de interesses pessoais e financeiros, egos, instintos, ambições. O cientista não é Deus e, na maioria das vezes, não é um gênio: é apenas um ser humano interessado numa questão que lhe intriga. Não acredite que tudo que um cientista te diz é verdade e que ele é dotado apenas de boas intenções…
Finalizo com uma frase genial que ouvi recentemente: toda ciência é temporária. Por isso, uma grande descoberta hoje pode ser desmoronada por uma nova grande descoberta amanhã. Saiba que você está escrevendo sobre algo que muda tão rápido quanto possível – e muda tanto que pode gerar novos ciclos de compreensão das coisas e do mundo (a “revolução científica” de Thomas Kuhn). Saiba interpretar quando está diante de uma verdadeira revolução.