Mídia e mais

um blog da jornalista Sabine Righetti

Posts de Outubro, 2009

A notícia do jornal online não é mais notícia no jornal impresso.

Publicado por sabine righetti em 26/10/2009

Aplausos para o pessoal do caderno Link do Estadão (que, aliás, completa 5 anos!) Hoje eu peguei o jornal na minha garagem certa de que o caderno traria alguma matéria com uma manchete do tipo: “Biz Stone visita o Brasil e fala sobre o Twitter”. Mas eu me enganei, para a minha sorte e para a sorte dos demais leitores. O Link trouxe uma espécie de perfil do criador do Twitter, abordando sua passagem pelo Brasil, mas com foco na sua personalidade. Genial. Veja a matéria aqui.

Digo isso porque o jornal impresso – ainda mais um caderno semanal de um jornal impresso, como o Link, – não pode mais se ater à veiculação de notícias factuais. Quando os jornais em papel chegam às mãos do leitor, a notícia não é mais notícia. Eu já sabia que Biz Stone passou pelo Brasil. Vi isso na TV, na internet – no próprio Twitter! Assim como eu já sabia que Michael Jackson havia morrido na tarde do dia 25 de junho, cuja notícia foi veiculada praticamente em tempo real, quando recebi o jornal impresso do dia seguinte com a manchete estampada: “Morre Michael Jackson”. Poxa, gente! Isso já não era mais a notícia. É preciso pensar em algo diferente do factual.

A matéria do caderno Link de hoje, na contramão do exemplo da cobertura da morte do Michael Jackson, mostra que jornais online e impressos devem trabalhar juntos: o primeiro com o factual e o segundo com um texto mais profundo e caprichado. Esse é o único jeito do jornal em papel sobreviver antes que os leitores desistam dele.

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E os cientistas continuam malucos. Pelo menos os do cinema.

Publicado por sabine righetti em 13/10/2009

Hoje fui assistir “Tá Chovendo Hambúrguer”, uma animação da Sony sobre um cientista que cria uma máquina que transforma água em comida e, com ela, promove chuvas de hambúrgueres e de outras guloseimas. O que tem de novo no filme é a exibição em 3D (aliás, foi o primeiro 3D que vi no cinema e fiz a inauguração na tela gigante do Imax. Fantástico!) E o que tem de velho é que o cientista da história, como era de se esperar, é retratado como um cara maluco, solitário, descabelado e considerado “estranho” por toda a sociedade. 

Essa imagem do cientista já era de “se esperar” porque o cientista tem sido estereotipado no cinema talvez desde que o cinema existe. Quer exemplos claros e recentes? O cientista de “De volta para o Futuro” (1, 2 e 3) era um cara cuja fisionomia lembrava muito a de Einstein: cabelos brancos esvoaçantes, olhar perdido, solitário. O mesmo acontece com o cientista de “Homem-aranha”, que quase destrói o mundo na tentativa de construir uma super máquina fonte de energia. Aliás, nesses filmes, o cientista sempre “quase” destrói o mundo e, ao final da história, salva a humanidade da destruição que ele própria iria causar.

Mas não apenas os cientistas são alvos da estereotipação. A jornalista-apresentadora-do-tempo, de “Tá Chovendo Hambúrguer”, é uma loira bonita. No meio do filme, ela revela-se uma mulher inteligente e grande conhecedora de meteorologia. No momento da transformação, ela automaticamente se enfeia: ganha óculos fundo-de-garrafa e prende os cabelos. Como disseram na história, ela “vira nerd”. Pessoas inteligentes são feias?

O uso de imagens como estereótipos é um artifício comum na comunicação, como disse uma vez em entrevista o pesquisador de semiótica Luciano Guimarães, da Unesp (leia aqui a minha reportagem sobre a mistificação de Einstein, que traz tal entrevista). E o problema de reforçar alguns estereótipos é que se cria uma imagem acerca de pessoas ou profissões que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Será que alguém parou para pensar que cientistas não necessariamente têm grandes idéias? Que na maioria das vezes eles não querem destruir nem salvar o mundo, que boa parte deles constitui família e que eles não precisam viver em laboratórios? No Brasil, a maioria dos nossos cientistas, por exemplo, vêm da área de humanas: 70% dos 10 mil novos doutores/ano são de humanas. Será que as crianças que estavam no cinema lembraram que historiadores, antropólogos e sociólogos também são cientistas?

A parte que me deixou feliz de “Tá Chovendo Hambúrguer” é que o estereótipo da jornalista é o de uma mulher bonita (hehe). Mas considerando que sou uma jornalista e uma cientista… devo ser uma coisa bem bizarra. Pelo menos aos olhos de um cineasta norte-americano!

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