sabine righetti

Blog de uma jornalista que não se cansa de escrever.

Posts de março \21\UTC 2010

Até que Saturno passe.

Publicado por sabine righetti em 21/03/2010

Dizem os astrólogos que a cada 29 anos entramos numa crise de amadurecimento. Isso acontece, de acordo com a astrologia, porque Saturno, que é um planeta pesado e com, teoricamente, forte influência na vida das pessoas, completa um ciclo a cada 28 anos e retoma o início do seu novo ciclo no 29º ano. A psicologia também diz que em torno de 30 anos – quando, em geral, as pessoas se casam e têm filhos – e aos 60 – quando se aposentam e se tornam avós – há uma espécie de crise de identidade, uma nova fase de amadurecimento e uma intensa reflexão sobre as conquistas da vida até então.

Sou cética, mas também sou curiosa. E como fiz 29 anos na última sexta-feira, resolvi ir atrás do que já escreveram sobre essa fase da vida, seja na astrologia, na mitologia ou na ciência. Li muito e resolvi pensar no que eu fiz da minha vida nesses 29 anos. São as maltraçadas linhas que seguem abaixo.

Descobri que sou ansiosa por natureza, e não só estou ansiosa nesta fase “saturnina” quando, teoricamente, a ansiedade se intensificaria. Sempre vivi como se o mundo fosse acabar amanhã, como se eu não pudesse deixar nada para amanhã. Todos os conflitos têm que ser resolvidos hoje. Todas as decisões devem ser tomadas agora. O trabalho eu devo terminar hoje – sem essa de ir dormir, acordar mais cedo no dia seguinte e terminar amanhã. O “hoje” é minha única garantia. Amanhã não sei como será. E sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo no “hoje”. Quero trabalhar hoje, mudar de cargo hoje, estudar hoje, viajar hoje, viver um grande amor hoje. Tudo ao mesmo tempo e intensamente. E tudo hoje.

Viver o “hoje” da maneira como eu vivo significa que tudo tem que ser intenso, tudo tem que ser romântico. Tenho uma visão romântica das pessoas, das relações e da vida. Vejo as cenas com trilha sonora, idealizo diálogos, sonho com momentos únicos. Imagino um mundo em que, romanticamente, não tenha conflitos. Imagino um amor que não tenha cobranças e que seja eterno. Imagino uma vida linda, longa, romântica e intensa. E quero isso hoje.

Aos 29 anos, não encontro exatamente uma crise de identidade. Amo minha profissão, amo o que eu faço, amo o que estudo. Minha crise talvez seja uma espécie de intensificação da minha ansiedade já natural. Quero ter mais tempo para ler os livros que ainda não li, ver os filmes que ainda não vi, estudar as línguas que ainda não falo, conhecer os lugares que eu não conheço. Quero viver o amor intensamente – e romanticamente. Minha crise atual talvez seja a descoberta de que o que eu quero só é possível no plano ideal… e então eu saio da astrologia, saio da psicologia e entro numa discussão filosófica. E a coisa complica.

Aos 29 anos eu continuo sem saber exatamente o que quero da minha vida. Mas a única coisa que me conforta é que eu já sei muito bem o que eu não quero. E isso é um grande avanço para o início desse novo ciclo.

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Sobre o dia internacional das mulheres

Publicado por sabine righetti em 08/03/2010

Eu já ganhei menos que um homem que tinha a mesma função que eu. Eu já recebi uma proposta de emprego de alguém que perguntou se eu pretendia me casar, “pois não se deve contratar mulheres casadas que, se trabalharem fora, causam a destruição da família”. Eu já fui (muitas vezes) paquerada em situações de trabalho – e já evitei expor minha opinião publicamente porque ser paquerada me constrangeu. Eu já ouvi que fulana só tem o cargo tal porque sai com o chefe (sabendo que ela tem o cargo tal porque ela é competente!). Eu já convivi com uma família islâmica durante um intercâmbio e fui proibida de sair de casa sozinha. E já saí de casa sozinha em uma região em que uma mulher fazer isso é proibidíssimo.

Já acharam graça porque eu gosto de carros (e sempre gostei). Já duvidaram que sei trocar pneus. Duvidaram mais ainda quando eu disse que um dia teria um jipe. Quando o comprei, duvidaram que eu saberia dirigi-lo. Já ensinei várias pessoas a dirigir (incluindo amigos meus – sim, homens inclusos) e já fiz muuuuitas balizas dificílimas sob os olhares descrédulos de pedestres do sexo masculino. E quando conto isso, ninguém acredita…

Estranhei quando senti medo de, um dia, ter filho. Não é a lei natural? Pode se ter medo de parto e de ter que ficar acordada a noite toda dando de mamar quando, na verdade, minha vontade é terminar a minha tese? Estranhei – sim, a mim mesma, – quando decidi que minha profissão seria mais importante que tudo. Isso não poderia ser normal. Não para uma mulher!

Já levei duas moças que trabalharam em casa à Delegacia da Mulher depois de terem apanhado de seus companheiros – e vi uma delas ser ameaçada de morte após a denúncia. Elas entraram nas estatísticas de que uma em cada quatro mulheres no mundo foi ou será agredida pelo próprio companheiro. Eu já me indignei, já chorei, já sofri, já abracei causas, fiz campanhas, lutei para que as mulheres percebam o que acontece ao seu próprio redor. Muitas não percebem… ou não querem perceber.

Brigo, critico, mando cartas, reclamo e escrevo aqui no blog quando vejo a visão machista do mundo predominar na mídia. “Isso é coisa de homem, isso é coisa de mulher”, diz uma reportagem. Jornalistas questionam a plástica da Dilma, mas não questionam a “beleza” dos candidatos homens à presidência. Questionam quando Madonna aparece com um namorado mais novo, mas não fazem o mesmo quando Mick Jagger namora uma menina da idade da filha. Inquietam-se quando uma atriz deixa transparecer as madeixas grisalhas, mas acham bonito o homem de cabelos cinza. Atiçam-se quando uma mulher de 50 anos está solteira (“solteirona”), mas elogiam um solteirão da mesma idade…

E concluo que o que está na mídia é o reflexo da nossa sociedade. E a nossa sociedade é desigual.

Queria ver o dia em que as diferenças de gênero simplesmente não existissem, em que homens e mulheres pudessem fazer as mesmas coisas, ter os mesmos cargos, os mesmos salários. Queria assistir o dia em que não seria mais considerado “heróico” as mulheres acumularem jornadas de trabalho: seria considerado abuso. Queria – e desejo isso com todas as minhas forças – alcançar o momento em que o dia internacional das mulheres não fosse mais necessário. Aí sim a minha causa estaria ganha.

[@binerighetti não se cansa de lutar pela fim da desigualdade de gênero – e de todas as demais desigualdades. E @binerighetti agradece muito o apoio que tem do namorado nesta e em todas as suas causas]

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Oscar 2010 – faça suas apostas!

Publicado por sabine righetti em 06/03/2010

Como cinéfila que sou, todos os anos faço uma maratona nos cinemas para conseguir assistir em tempo os filmes concorrentes nas grandes premiações como Oscar, Cannes, Festival de Berlim e Globo de Ouro. Na maioria das vezes, não concordo com os vencedores escolhidos e sempre perco os bolões que participo… Mesmo assim, sigo fazendo minhas apostas a partir de critérios subjetivos que não coincidem com os mercadológicos e, porque não dizer, políticos das grandes premiações do cinema.

Minha lista de top os the pops do Oscar 2010 segue abaixo. Qual é a sua?

Melhor filme – eu espero muito que AVATAR não ganhe melhor filme, pois apesar dos milhões de dólares despendidos por James Cameron (diretor de TITANIC, 1997) e dos milhões de espectadores que rendeu, o longa é “apenas” uma reunião de grandes efeitos especiais. Não há um roteiro fantástico, nem um enredo incrível e nem atuações brilhantes digno de melhor filme. Por isso, aposto em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Ousadíssimo, ao ponto de ter assassinado Hitler em plena sessão de cinema. Merece.

Melhor ator – aposto em Jeff Bridges, protagonista de CORAÇÃO LOUCO que, aliás, leva o filme nas costas. Se não fosse ele, não haveria bilheteria afim de ver a história de um músico country decadente e em crise. Jeff está incrível, ao ponto de me fazer acordar, no dia seguinte de ter visto sua atuação, com vontade de ouvir Garth Brooks. Collin Firth, de DIREITO DE AMAR, filme de Tim Burton, também merece, mas creio que não leva. Por favor, academia, não premiem Morgan Freeman, o Mandela de INVICTOS. A única coisa que ele soube fazer para personificá-lo foi o “r” africano (“sorry” virou “sóri”). E só.

Melhor ator coadjuvante – Sem sombra de dúvidas, o prêmio vai para Christoph Waltz, o caçador de nazistas de BASTARDOS INGLÓRIOS. Nesse, eu aposto de olhos fechados. O cara rouba a cena no filme e faz um show impressionante. E se a academia der o prêmio para outro, sério: eu nunca mais assisto o Oscar.

Melhor atriz – gostaria muito que Carey Mulligan, de EDUCAÇÃO, levasse a estatueta. Aposto nela. Mas algo me diz que vai pra Meryl Streep, de JULIE&JULIA. Ela faz o filme sozinha! E, como vocês sabem, a academia adoro premiar a Meryl Streep.

Melhor atriz coadjuvante – nenhuma das concorrentes super me convenceu. Penélope Cruz, de NINE, não leva porque já levou no ano passado com VICKY&CRISTINA EM BARCELONA… Ficarei com Gabourey Sidibe, de PRECIOSA.

Melhor animação – UP! A animação que me fez chorar – e muito. Uma graça, perfeita para qualquer idade. Leva a estatueta!  (mas também não merecia ter sido indicada a “melhor filme”, né?)

Direção de arte – AVATAR, claro. Levará essa e todas as demais categorias relacionadas aos efeitos especiais. E está imbatível mesmo.

Costume Design – COCO ANTES DE CHANEL – Catherine Leterrier. Afinal, é um filmão sobre uma das mais marcantes estilistas da história. Vale o prêmio.

Direção – aposto em Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS, para melhor filme e também melhor diretor. Mas pode ser que a academia faça algo parecido com o que fez em 2006, quando deu melhor diretor para BROKEBACK MOUNTAIN e melhor filme para CRASH. Nesse caso, Kathryn Bigelow levaria por GUERRA AO TERROR.

Melhor documentário – não consegui assistir nenhum! Mas depois do episódio da Orca que matou a treinadora no SeaWorld, creio que THE COVE, de Louie Psihoyos e Fisher Stevens, ganhou repercussão suficiente para levar a estatueta.

Edição de imagens – AVATAR (Stephen Rivkin, John Refoua e James Cameron).

Melhor filme estrangeiro – eu quero MUITO que o argentino O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, de Juan José Campanella, leve (escrevi sobre o filme, leia aqui). Torço por ele e aposto nele. Mas algo me diz que a estatueta vai para o alemão A FITA BRANCA, de Michael Haneke.

Música original – aposto em “The Weary Kind”, tema de CORAÇÃO LOUCO, de Ryan Bingham e Bone Burnett.

Edição de som – aposto em AVATAR novamente. Prêmio vai para Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle.

Efeitos visuais – alguém tem alguma dúvida de que AVATAR ganha? Por Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones.

Melhor roteiro adaptado – difícil. Gostaria que EDUCAÇÃO levasse e vou apostar no Nick Hornby. Mas o roteiro de AMOR SEM ESCALAS parece que está sendo bem cotado…

Melhor roteiro original – Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS. Ou será que os irmãoes Coen levam de novo – desta vez por UM HOMEM SÉRIO?

[@binerighetti não entendeu porque o Oscar desta ano tem 10 indicados a melhor filme!]

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O segredo dos seus olhos, o segredo do amor e o segredo do cineasta.

Publicado por sabine righetti em 04/03/2010

Muito antes de O SEGREDO DOS SEUS OLHOS estrear no Brasil, o que aconteceu nesta semana, eu senti, numa breve passagem que tive por Buenos Aires, que poderia esperar muito do filme. Dirigido por Juan José Campanella, o longa dominou páginas e mais páginas da imprensa argentina – o que não é pouca coisa, já que o país já possui uma indústria de cinema bastante conhecida e reconhecida internacionalmente (e a mídia local não desperdiça linhas elogiosas à toa). O fato é que O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um típico filme que marca uma época, um diretor, os artistas participantes e, claro, os espectadores. E como marca!

Trata-se de um drama, com suspense na dose certa e pitadas de humor bastante inteligentes. Mas, sobretudo, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um filme de amor, desses que não se vê em Hollywood e, muitos menos, se encontra na vida real. “Amor puro”, como descreve o próprio personagem Benjamin Espósito, que conduz a história, incrivelmente interpretado por Ricardo Darín, de O FILHO DA NOIVA (2001).

Benjamin Espósito, investigador, é apaixonado pela sua linda chefe. E é correspondido, mas num amor que não se desenrola e não se concretiza nem na forma de um beijo. Um amor restrito a troca de olhares – olhares estes presentes em todo o filme, explorados de diversas formas por todos os personagens, justificando a cada momento o título do longa. “Os olhos falam demais. Seria bom se eles ficassem quietos de vez em quando”, descreve.

Ele próprio, Benjamim Espósito, admira e desacredita no amor que vê no jovem bancário Ricardo Morales pela esposa Liliana Coloto, estuprada e brutalmente assassinada, cujo caso é por ele (Benjamin) investigado. Amor arrebatador, culpa, castigo, vingança e até a não-vingança são temas explorados durante todo o filme.

Nesse clima de tensão, de amor sofrido, de perda, de tentativa de compreensão da existência do amor eterno e incondicional, Benjamin enfrenta as duas horas do longa – e os espectadores vão junto. E questiona-se, – a ele próprio, diante do “vazio” em que vê sua vida -, e ao jovem Morales: Como alguém pode amar tanto? Como alguém pode sobreviver ao assassinato de sua tão amada esposa? “O amor nos olhos daquele homem era puro, como se não se abalasse pelo desgaste do dia a dia e pelos problemas. Puro, eterno, linear”, descreve.

O roteiro é impecável, o texto é poético, as atuações são incríveis. Algumas tomadas, como logo a inicial, que é repetida (retomada) ao longo do filme, são geniais. E a cena do estádio de futebol, em que a câmera “brinca” com o tumulto da torcida e transfere, ao espectador, a sensação de estar lá, naquela angústia, naquele momento, naquele desespero por ter visto na multidão alguém que pensou ter visto, e não conseguir alcançá-lo, vai ficar pra história do cinema.

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS merece o Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro e mereceria ganhar as demais categorias, se o fato de ser argentino não o impedisse de concorrer. É simplesmente imperdível.

[@binerighetti está impressionada com o filme e com o amor de Morales pela sua esposa. E @binerighetti acredita no amor puro.]

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