Dizem os astrólogos que a cada 29 anos entramos numa crise de amadurecimento. Isso acontece, de acordo com a astrologia, porque Saturno, que é um planeta pesado e com, teoricamente, forte influência na vida das pessoas, completa um ciclo a cada 28 anos e retoma o início do seu novo ciclo no 29º ano. A psicologia também diz que em torno de 30 anos – quando, em geral, as pessoas se casam e têm filhos – e aos 60 – quando se aposentam e se tornam avós – há uma espécie de crise de identidade, uma nova fase de amadurecimento e uma intensa reflexão sobre as conquistas da vida até então.
Sou cética, mas também sou curiosa. E como fiz 29 anos na última sexta-feira, resolvi ir atrás do que já escreveram sobre essa fase da vida, seja na astrologia, na mitologia ou na ciência. Li muito e resolvi pensar no que eu fiz da minha vida nesses 29 anos. São as maltraçadas linhas que seguem abaixo.
Descobri que sou ansiosa por natureza, e não só estou ansiosa nesta fase “saturnina” quando, teoricamente, a ansiedade se intensificaria. Sempre vivi como se o mundo fosse acabar amanhã, como se eu não pudesse deixar nada para amanhã. Todos os conflitos têm que ser resolvidos hoje. Todas as decisões devem ser tomadas agora. O trabalho eu devo terminar hoje – sem essa de ir dormir, acordar mais cedo no dia seguinte e terminar amanhã. O “hoje” é minha única garantia. Amanhã não sei como será. E sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo no “hoje”. Quero trabalhar hoje, mudar de cargo hoje, estudar hoje, viajar hoje, viver um grande amor hoje. Tudo ao mesmo tempo e intensamente. E tudo hoje.
Viver o “hoje” da maneira como eu vivo significa que tudo tem que ser intenso, tudo tem que ser romântico. Tenho uma visão romântica das pessoas, das relações e da vida. Vejo as cenas com trilha sonora, idealizo diálogos, sonho com momentos únicos. Imagino um mundo em que, romanticamente, não tenha conflitos. Imagino um amor que não tenha cobranças e que seja eterno. Imagino uma vida linda, longa, romântica e intensa. E quero isso hoje.
Aos 29 anos, não encontro exatamente uma crise de identidade. Amo minha profissão, amo o que eu faço, amo o que estudo. Minha crise talvez seja uma espécie de intensificação da minha ansiedade já natural. Quero ter mais tempo para ler os livros que ainda não li, ver os filmes que ainda não vi, estudar as línguas que ainda não falo, conhecer os lugares que eu não conheço. Quero viver o amor intensamente – e romanticamente. Minha crise atual talvez seja a descoberta de que o que eu quero só é possível no plano ideal… e então eu saio da astrologia, saio da psicologia e entro numa discussão filosófica. E a coisa complica.
Aos 29 anos eu continuo sem saber exatamente o que quero da minha vida. Mas a única coisa que me conforta é que eu já sei muito bem o que eu não quero. E isso é um grande avanço para o início desse novo ciclo.