O segredo dos seus olhos, o segredo do amor e o segredo do cineasta.
Publicado por sabine righetti em 04/03/2010
Muito antes de O SEGREDO DOS SEUS OLHOS estrear no Brasil, o que aconteceu nesta semana, eu senti, numa breve passagem que tive por Buenos Aires, que poderia esperar muito do filme. Dirigido por Juan José Campanella, o longa dominou páginas e mais páginas da imprensa argentina – o que não é pouca coisa, já que o país já possui uma indústria de cinema bastante conhecida e reconhecida internacionalmente (e a mídia local não desperdiça linhas elogiosas à toa). O fato é que O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um típico filme que marca uma época, um diretor, os artistas participantes e, claro, os espectadores. E como marca!
Trata-se de um drama, com suspense na dose certa e pitadas de humor bastante inteligentes. Mas, sobretudo, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um filme de amor, desses que não se vê em Hollywood e, muitos menos, se encontra na vida real. “Amor puro”, como descreve o próprio personagem Benjamin Espósito, que conduz a história, incrivelmente interpretado por Ricardo Darín, de O FILHO DA NOIVA (2001).
Benjamin Espósito, investigador, é apaixonado pela sua linda chefe. E é correspondido, mas num amor que não se desenrola e não se concretiza nem na forma de um beijo. Um amor restrito a troca de olhares – olhares estes presentes em todo o filme, explorados de diversas formas por todos os personagens, justificando a cada momento o título do longa. “Os olhos falam demais. Seria bom se eles ficassem quietos de vez em quando”, descreve.
Ele próprio, Benjamim Espósito, admira e desacredita no amor que vê no jovem bancário Ricardo Morales pela esposa Liliana Coloto, estuprada e brutalmente assassinada, cujo caso é por ele (Benjamin) investigado. Amor arrebatador, culpa, castigo, vingança e até a não-vingança são temas explorados durante todo o filme.
Nesse clima de tensão, de amor sofrido, de perda, de tentativa de compreensão da existência do amor eterno e incondicional, Benjamin enfrenta as duas horas do longa – e os espectadores vão junto. E questiona-se, – a ele próprio, diante do “vazio” em que vê sua vida -, e ao jovem Morales: Como alguém pode amar tanto? Como alguém pode sobreviver ao assassinato de sua tão amada esposa? “O amor nos olhos daquele homem era puro, como se não se abalasse pelo desgaste do dia a dia e pelos problemas. Puro, eterno, linear”, descreve.
O roteiro é impecável, o texto é poético, as atuações são incríveis. Algumas tomadas, como logo a inicial, que é repetida (retomada) ao longo do filme, são geniais. E a cena do estádio de futebol, em que a câmera “brinca” com o tumulto da torcida e transfere, ao espectador, a sensação de estar lá, naquela angústia, naquele momento, naquele desespero por ter visto na multidão alguém que pensou ter visto, e não conseguir alcançá-lo, vai ficar pra história do cinema.
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS merece o Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro e mereceria ganhar as demais categorias, se o fato de ser argentino não o impedisse de concorrer. É simplesmente imperdível.
[@binerighetti está impressionada com o filme e com o amor de Morales pela sua esposa. E @binerighetti acredita no amor puro.]
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