O esquema é o seguinte: o cara abre uma empresa. A empresa cresce. Ele paga salários no piso do piso a seus funcionários que, sem opção, continuam trabalhando pra ele. Aí, ele entra na onda da responsabilidade socioambiental, porque isso pode dar descontos em impostos e ainda dá insumos para o marketing da empresa promover a marca e vender mais (e ter mais lucro). Aí o jogo do ganha-ganha por parte dos empresários não tem mais fim.
Peraí? Eu disse responsabilidade socioambiental? Onde?
Acabo de participar de um evento que reuniu centenas de empresários preocupados em inovar de maneira sustentável. Uns são do bem e mostram consciência ambiental, outros – principalmente os especialistas no assunto e autores de livro – nem tanto. A preocupação é com o lucro e só. Óbvio, eu não deveria ficar surpresa com isso, certo? Errado, principalmente quando se trata de responsabilidade “social”.
A reflexão que faço é a seguinte: o cara tem uma empresa com um monte de funcionários que compõe a base da pirâmide e que mal consegue colocar comida no prato dos vários filhos. Provavelmente, os filhos de boa parte dos funcionários da empresa dele – em especial dos que desenvolvem as atividades “de baixo escalão” – passe o dia nas ruas. Com muita sorte, eles freqüentam uma escola pública em meio período do dia. Aí o empresário vai lá e… monta uma ONG assistencialista? E vende a imagem de que a empresa é atuante na favela?
Não seria mais lógico pagar melhores salários para que os próprios funcionários resolvessem os problemas dos seus próprios filhos ao invés de terem que recorrer a ONGs que, afinal, dão desconto em impostos para empresas?
Não sou contra ONGs (aliás, participo ativamente de duas!), mas sou contra o jogo de ganha-ganha por parte dos donos de empresa. E acho que uma lógica de melhores salários funcionaria melhor do que uma lógica assistencialista. Que tal uma política pública que dê desconto de impostos para as empresas não tenha diferenças salariais superiores a dez vezes do faxineiro ao presidente? Fica a dica.
