sabine righetti

Blog de uma jornalista que não se cansa de escrever.

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Oscar 2010 – faça suas apostas!

Publicado por sabine righetti em 06/03/2010

Como cinéfila que sou, todos os anos faço uma maratona nos cinemas para conseguir assistir em tempo os filmes concorrentes nas grandes premiações como Oscar, Cannes, Festival de Berlim e Globo de Ouro. Na maioria das vezes, não concordo com os vencedores escolhidos e sempre perco os bolões que participo… Mesmo assim, sigo fazendo minhas apostas a partir de critérios subjetivos que não coincidem com os mercadológicos e, porque não dizer, políticos das grandes premiações do cinema.

Minha lista de top os the pops do Oscar 2010 segue abaixo. Qual é a sua?

Melhor filme – eu espero muito que AVATAR não ganhe melhor filme, pois apesar dos milhões de dólares despendidos por James Cameron (diretor de TITANIC, 1997) e dos milhões de espectadores que rendeu, o longa é “apenas” uma reunião de grandes efeitos especiais. Não há um roteiro fantástico, nem um enredo incrível e nem atuações brilhantes digno de melhor filme. Por isso, aposto em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Ousadíssimo, ao ponto de ter assassinado Hitler em plena sessão de cinema. Merece.

Melhor ator – aposto em Jeff Bridges, protagonista de CORAÇÃO LOUCO que, aliás, leva o filme nas costas. Se não fosse ele, não haveria bilheteria afim de ver a história de um músico country decadente e em crise. Jeff está incrível, ao ponto de me fazer acordar, no dia seguinte de ter visto sua atuação, com vontade de ouvir Garth Brooks. Collin Firth, de DIREITO DE AMAR, filme de Tim Burton, também merece, mas creio que não leva. Por favor, academia, não premiem Morgan Freeman, o Mandela de INVICTOS. A única coisa que ele soube fazer para personificá-lo foi o “r” africano (“sorry” virou “sóri”). E só.

Melhor ator coadjuvante – Sem sombra de dúvidas, o prêmio vai para Christoph Waltz, o caçador de nazistas de BASTARDOS INGLÓRIOS. Nesse, eu aposto de olhos fechados. O cara rouba a cena no filme e faz um show impressionante. E se a academia der o prêmio para outro, sério: eu nunca mais assisto o Oscar.

Melhor atriz – gostaria muito que Carey Mulligan, de EDUCAÇÃO, levasse a estatueta. Aposto nela. Mas algo me diz que vai pra Meryl Streep, de JULIE&JULIA. Ela faz o filme sozinha! E, como vocês sabem, a academia adoro premiar a Meryl Streep.

Melhor atriz coadjuvante – nenhuma das concorrentes super me convenceu. Penélope Cruz, de NINE, não leva porque já levou no ano passado com VICKY&CRISTINA EM BARCELONA… Ficarei com Gabourey Sidibe, de PRECIOSA.

Melhor animação – UP! A animação que me fez chorar – e muito. Uma graça, perfeita para qualquer idade. Leva a estatueta!  (mas também não merecia ter sido indicada a “melhor filme”, né?)

Direção de arte – AVATAR, claro. Levará essa e todas as demais categorias relacionadas aos efeitos especiais. E está imbatível mesmo.

Costume Design – COCO ANTES DE CHANEL – Catherine Leterrier. Afinal, é um filmão sobre uma das mais marcantes estilistas da história. Vale o prêmio.

Direção – aposto em Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS, para melhor filme e também melhor diretor. Mas pode ser que a academia faça algo parecido com o que fez em 2006, quando deu melhor diretor para BROKEBACK MOUNTAIN e melhor filme para CRASH. Nesse caso, Kathryn Bigelow levaria por GUERRA AO TERROR.

Melhor documentário – não consegui assistir nenhum! Mas depois do episódio da Orca que matou a treinadora no SeaWorld, creio que THE COVE, de Louie Psihoyos e Fisher Stevens, ganhou repercussão suficiente para levar a estatueta.

Edição de imagens – AVATAR (Stephen Rivkin, John Refoua e James Cameron).

Melhor filme estrangeiro – eu quero MUITO que o argentino O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, de Juan José Campanella, leve (escrevi sobre o filme, leia aqui). Torço por ele e aposto nele. Mas algo me diz que a estatueta vai para o alemão A FITA BRANCA, de Michael Haneke.

Música original – aposto em “The Weary Kind”, tema de CORAÇÃO LOUCO, de Ryan Bingham e Bone Burnett.

Edição de som – aposto em AVATAR novamente. Prêmio vai para Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle.

Efeitos visuais – alguém tem alguma dúvida de que AVATAR ganha? Por Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones.

Melhor roteiro adaptado – difícil. Gostaria que EDUCAÇÃO levasse e vou apostar no Nick Hornby. Mas o roteiro de AMOR SEM ESCALAS parece que está sendo bem cotado…

Melhor roteiro original – Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS. Ou será que os irmãoes Coen levam de novo – desta vez por UM HOMEM SÉRIO?

[@binerighetti não entendeu porque o Oscar desta ano tem 10 indicados a melhor filme!]

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O segredo dos seus olhos, o segredo do amor e o segredo do cineasta.

Publicado por sabine righetti em 04/03/2010

Muito antes de O SEGREDO DOS SEUS OLHOS estrear no Brasil, o que aconteceu nesta semana, eu senti, numa breve passagem que tive por Buenos Aires, que poderia esperar muito do filme. Dirigido por Juan José Campanella, o longa dominou páginas e mais páginas da imprensa argentina – o que não é pouca coisa, já que o país já possui uma indústria de cinema bastante conhecida e reconhecida internacionalmente (e a mídia local não desperdiça linhas elogiosas à toa). O fato é que O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um típico filme que marca uma época, um diretor, os artistas participantes e, claro, os espectadores. E como marca!

Trata-se de um drama, com suspense na dose certa e pitadas de humor bastante inteligentes. Mas, sobretudo, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é um filme de amor, desses que não se vê em Hollywood e, muitos menos, se encontra na vida real. “Amor puro”, como descreve o próprio personagem Benjamin Espósito, que conduz a história, incrivelmente interpretado por Ricardo Darín, de O FILHO DA NOIVA (2001).

Benjamin Espósito, investigador, é apaixonado pela sua linda chefe. E é correspondido, mas num amor que não se desenrola e não se concretiza nem na forma de um beijo. Um amor restrito a troca de olhares – olhares estes presentes em todo o filme, explorados de diversas formas por todos os personagens, justificando a cada momento o título do longa. “Os olhos falam demais. Seria bom se eles ficassem quietos de vez em quando”, descreve.

Ele próprio, Benjamim Espósito, admira e desacredita no amor que vê no jovem bancário Ricardo Morales pela esposa Liliana Coloto, estuprada e brutalmente assassinada, cujo caso é por ele (Benjamin) investigado. Amor arrebatador, culpa, castigo, vingança e até a não-vingança são temas explorados durante todo o filme.

Nesse clima de tensão, de amor sofrido, de perda, de tentativa de compreensão da existência do amor eterno e incondicional, Benjamin enfrenta as duas horas do longa – e os espectadores vão junto. E questiona-se, – a ele próprio, diante do “vazio” em que vê sua vida -, e ao jovem Morales: Como alguém pode amar tanto? Como alguém pode sobreviver ao assassinato de sua tão amada esposa? “O amor nos olhos daquele homem era puro, como se não se abalasse pelo desgaste do dia a dia e pelos problemas. Puro, eterno, linear”, descreve.

O roteiro é impecável, o texto é poético, as atuações são incríveis. Algumas tomadas, como logo a inicial, que é repetida (retomada) ao longo do filme, são geniais. E a cena do estádio de futebol, em que a câmera “brinca” com o tumulto da torcida e transfere, ao espectador, a sensação de estar lá, naquela angústia, naquele momento, naquele desespero por ter visto na multidão alguém que pensou ter visto, e não conseguir alcançá-lo, vai ficar pra história do cinema.

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS merece o Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro e mereceria ganhar as demais categorias, se o fato de ser argentino não o impedisse de concorrer. É simplesmente imperdível.

[@binerighetti está impressionada com o filme e com o amor de Morales pela sua esposa. E @binerighetti acredita no amor puro.]

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Feliz 2010 na África do Sul!

Publicado por sabine righetti em 19/01/2010

Os leitores do meu blog – poucos, porém queridíssimos, – devem ter estranhado meu sumiço no final do ano passado. Isso foi resultado de muito trabalho e de uma viagem para a Africa do Sul com o objetivo de fazer algumas imersões: pela história recente daquele país, pela cultura islâmica (alvo dos meus estudos na área de direitos humanos) e, também, pela língua inglesa (viajar é sempre o melhor jeito de treinar um idioma).

A viagem foi incrível e rendeu muitas histórias, vídeos e fotos. Algumas posto aqui. Vale destacar que não foi uma viagem típica de turismo, não fiquei em hoteis e nem fiz safáris caros. Quis, apenas, mergulhar profundamente na África do Sul e, inclusive, fiquei hospedada na casa de africanos.

Bom, apesar deste blog ser sobre mídia, reproduzo aqui cinco textos que escrevi para o blog de viagens – SPOTRAVEL – de um amigo jornalista. Espero que gostem. E, em 2010, continuaremos juntos analisando a mídia! Até mais!

Entenda o Apartheid em 3 cidades da Africa do Sul

Cidade do Cabo: vale uma viagem inteira

Comida africana: o desafio

Durban, a Índia africana

Johanesburgo ou Pretória?

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E os cientistas continuam malucos. Pelo menos os do cinema.

Publicado por sabine righetti em 13/10/2009

Hoje fui assistir “Tá Chovendo Hambúrguer”, uma animação da Sony sobre um cientista que cria uma máquina que transforma água em comida e, com ela, promove chuvas de hambúrgueres e de outras guloseimas. O que tem de novo no filme é a exibição em 3D (aliás, foi o primeiro 3D que vi no cinema e fiz a inauguração na tela gigante do Imax. Fantástico!) E o que tem de velho é que o cientista da história, como era de se esperar, é retratado como um cara maluco, solitário, descabelado e considerado “estranho” por toda a sociedade. 

Essa imagem já era de “se esperar”: o cientista tem sido estereotipado no cinema talvez desde que o cinema existe. Quer exemplos claros e recentes? O cientista de “De volta para o Futuro” (1, 2 e 3) era um cara cuja fisionomia lembrava muito a de Einstein: cabelos brancos esvoaçantes, olhar perdido, solitário. O mesmo acontece com o cientista de “Homem-aranha”, que quase destrói o mundo na tentativa de construir uma super máquina fonte de energia. Aliás, nesses filmes, o cientista sempre “quase” destrói o mundo e, ao final da história, salva a humanidade da destruição que ele própria iria causar.

Mas não apenas os cientistas são alvos da estereotipação. A jornalista-apresentadora-do-tempo, de “Tá Chovendo Hambúrguer”, é uma loira bonita. No meio do filme, ela revela-se uma mulher inteligente e grande conhecedora de meteorologia. No momento da transformação, ela automaticamente se enfeia: ganha óculos fundo-de-garrafa e prende os cabelos. Como disseram na história, ela “vira nerd”. Pessoas inteligentes são feias?

O uso de imagens como estereótipos é um artifício comum na comunicação, como disse uma vez em entrevista o pesquisador de semiótica Luciano Guimarães, da Unesp (leia aqui a minha reportagem sobre a mistificação de Einstein, que traz tal entrevista). E o problema de reforçar alguns estereótipos é que se cria uma imagem acerca de pessoas ou profissões que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Será que alguém parou para pensar que cientistas não necessariamente têm grandes idéias? Que na maioria das vezes eles não querem destruir nem salvar o mundo, que boa parte deles constitui família e que eles não precisam viver em laboratórios? No Brasil, a maioria dos nossos cientistas, por exemplo, vêm da área de humanas: 70% dos 10 mil novos doutores/ano são de humanas. Será que as crianças que estavam no cinema lembraram que historiadores, antropólogos e sociólogos também são cientistas?

A parte que me deixou feliz de “Tá Chovendo Hambúrguer” é que o estereótipo da jornalista é o de uma mulher bonita (hehe). Mas considerando que sou uma jornalista e uma cientista… devo ser uma coisa bem bizarra. Pelo menos aos olhos de um cineasta norte-americano!

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Ciência: quão nova a novidade é?

Publicado por sabine righetti em 25/09/2009

Eu sempre digo que o jornalista de ciência precisa conhecer os meandros do mundo acadêmico, o funcionando da coisa, os métodos de avaliação da atividade científica, a política envolvida. Caso contrário, vira massa manipulável. Digo isso porque outro dia me perguntaram: como saber se uma pesquisa é nova mesmo ou se já existe muita coisa parecida sendo feita por aí? Ou seja: se um cientista liga para um jornalista dizendo que tem uma grande novidade, como o coitado do jornalista faz para saber quão nova a novidade é? Simples: é preciso conhecer a prática científica e investigar.

Em primeiro lugar, novidade que é novidade na ciência é sempre publicada primeiro em artigo científico, em uma revista indexada, avaliada pelos pares (outros cientistas). Só depois de publicada, é que a novidade se torna, como o próprio nome diz, “pública”, e aí pode ir para a imprensa. Se um cientista ligar para você dizendo que a grande novidade dele está no prelo (em avaliação pela revista científica) duvide. Pode ser rolo!

Vale apurar também quando ouvir termos do tipo “sou o primeiro cientista a estudar tal coisa”, “somos o primeiro grupo a desenvolver isso no Brasil”. Uma boa dica é consultar, in off, e como quem não quer nada, outro grupo de cientistas da mesma área. Normalmente o que se escuta é: “tal coisa é estudada no Brasil faz tempo, desde o fulano de tal”. Aí, você pondera a afirmação bombástica com tom de inovação que iria colocar no seu texto.

Cuidado com o que não tiver provas! Uma vez fiz uma matéria sobre uma técnica desenvolvida numa empresa e um pesquisador de uma universidade me ligou dizendo que o gerente daquela empresa roubou a ideia dele. Não se meta na confusão! Como saber quem está falando a verdade? Para a comunidade científica, o “dono” da ideia é quem lançou primeiro a inovação – nesse caso, a empresa. Na dúvida, deixe a pauta de lado.

Importante: não acredite na neutralidade da ciência! Não veja a ciência como uma luz no escuro, parafraseando Carl Sagan. A atividade científica, como outra qualquer, é feita de interesses pessoais e financeiros, egos, instintos, ambições. O cientista não é Deus e, na maioria das vezes, não é um gênio: é apenas um ser humano interessado numa questão que lhe intriga. Não acredite que tudo que um cientista te diz é verdade e que ele é dotado apenas de boas intenções…

Finalizo com uma frase genial que ouvi recentemente: toda ciência é temporária. Por isso, uma grande descoberta hoje pode ser desmoronada por uma nova grande descoberta amanhã. Saiba que você está escrevendo sobre algo que muda tão rápido quanto possível – e muda tanto que pode gerar novos ciclos de compreensão das coisas e do mundo (a “revolução científica” de Thomas Kuhn). Saiba interpretar quando está diante de uma verdadeira revolução.

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