Hoje fui assistir “Tá Chovendo Hambúrguer”, uma animação da Sony sobre um cientista que cria uma máquina que transforma água em comida e, com ela, promove chuvas de hambúrgueres e de outras guloseimas. O que tem de novo no filme é a exibição em 3D (aliás, foi o primeiro 3D que vi no cinema e fiz a inauguração na tela gigante do Imax. Fantástico!) E o que tem de velho é que o cientista da história, como era de se esperar, é retratado como um cara maluco, solitário, descabelado e considerado “estranho” por toda a sociedade.
Essa imagem do cientista já era de “se esperar” porque o cientista tem sido estereotipado no cinema talvez desde que o cinema existe. Quer exemplos claros e recentes? O cientista de “De volta para o Futuro” (1, 2 e 3) era um cara cuja fisionomia lembrava muito a de Einstein: cabelos brancos esvoaçantes, olhar perdido, solitário. O mesmo acontece com o cientista de “Homem-aranha”, que quase destrói o mundo na tentativa de construir uma super máquina fonte de energia. Aliás, nesses filmes, o cientista sempre “quase” destrói o mundo e, ao final da história, salva a humanidade da destruição que ele própria iria causar.
Mas não apenas os cientistas são alvos da estereotipação. A jornalista-apresentadora-do-tempo, de “Tá Chovendo Hambúrguer”, é uma loira bonita. No meio do filme, ela revela-se uma mulher inteligente e grande conhecedora de meteorologia. No momento da transformação, ela automaticamente se enfeia: ganha óculos fundo-de-garrafa e prende os cabelos. Como disseram na história, ela “vira nerd”. Pessoas inteligentes são feias?
O uso de imagens como estereótipos é um artifício comum na comunicação, como disse uma vez em entrevista o pesquisador de semiótica Luciano Guimarães, da Unesp (leia aqui a minha reportagem sobre a mistificação de Einstein, que traz tal entrevista). E o problema de reforçar alguns estereótipos é que se cria uma imagem acerca de pessoas ou profissões que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.
Será que alguém parou para pensar que cientistas não necessariamente têm grandes idéias? Que na maioria das vezes eles não querem destruir nem salvar o mundo, que boa parte deles constitui família e que eles não precisam viver em laboratórios? No Brasil, a maioria dos nossos cientistas, por exemplo, vêm da área de humanas: 70% dos 10 mil novos doutores/ano são de humanas. Será que as crianças que estavam no cinema lembraram que historiadores, antropólogos e sociólogos também são cientistas?
A parte que me deixou feliz de “Tá Chovendo Hambúrguer” é que o estereótipo da jornalista é o de uma mulher bonita (hehe). Mas considerando que sou uma jornalista e uma cientista… devo ser uma coisa bem bizarra. Pelo menos aos olhos de um cineasta norte-americano!
Estreiam amanhã dois filmes nacionais com Selton Melo: “Jean Charles” e “A Erva do Rato”. E, como disse Luiz Zanin, crítico do Estadão, mais diferentes entre si não poderiam ser. “Jean Charles”, filme coproduzido pelo Brasil e a Inglaterra, tem Selton Mello no papel principal e aborda a história do brasileiro assassinado pela polícia londrina no metrô de Londres, em 2005, confundido com um terrorista.
Falem o que quiserem falar, critiquem sem piedade, arranquem-nos a obrigatoriedade do diploma. Mas uma coisa é certa: o que seria deste país sem a nossa imprensa? Digo isso com base nos acontecimentos políticos que machetaram os jornais na semana passada. Vamos aos fatos:
