Mídia e mais

um blog da jornalista Sabine Righetti

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E os cientistas continuam malucos. Pelo menos os do cinema.

Publicado por sabine righetti em 13/10/2009

Hoje fui assistir “Tá Chovendo Hambúrguer”, uma animação da Sony sobre um cientista que cria uma máquina que transforma água em comida e, com ela, promove chuvas de hambúrgueres e de outras guloseimas. O que tem de novo no filme é a exibição em 3D (aliás, foi o primeiro 3D que vi no cinema e fiz a inauguração na tela gigante do Imax. Fantástico!) E o que tem de velho é que o cientista da história, como era de se esperar, é retratado como um cara maluco, solitário, descabelado e considerado “estranho” por toda a sociedade. 

Essa imagem do cientista já era de “se esperar” porque o cientista tem sido estereotipado no cinema talvez desde que o cinema existe. Quer exemplos claros e recentes? O cientista de “De volta para o Futuro” (1, 2 e 3) era um cara cuja fisionomia lembrava muito a de Einstein: cabelos brancos esvoaçantes, olhar perdido, solitário. O mesmo acontece com o cientista de “Homem-aranha”, que quase destrói o mundo na tentativa de construir uma super máquina fonte de energia. Aliás, nesses filmes, o cientista sempre “quase” destrói o mundo e, ao final da história, salva a humanidade da destruição que ele própria iria causar.

Mas não apenas os cientistas são alvos da estereotipação. A jornalista-apresentadora-do-tempo, de “Tá Chovendo Hambúrguer”, é uma loira bonita. No meio do filme, ela revela-se uma mulher inteligente e grande conhecedora de meteorologia. No momento da transformação, ela automaticamente se enfeia: ganha óculos fundo-de-garrafa e prende os cabelos. Como disseram na história, ela “vira nerd”. Pessoas inteligentes são feias?

O uso de imagens como estereótipos é um artifício comum na comunicação, como disse uma vez em entrevista o pesquisador de semiótica Luciano Guimarães, da Unesp (leia aqui a minha reportagem sobre a mistificação de Einstein, que traz tal entrevista). E o problema de reforçar alguns estereótipos é que se cria uma imagem acerca de pessoas ou profissões que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Será que alguém parou para pensar que cientistas não necessariamente têm grandes idéias? Que na maioria das vezes eles não querem destruir nem salvar o mundo, que boa parte deles constitui família e que eles não precisam viver em laboratórios? No Brasil, a maioria dos nossos cientistas, por exemplo, vêm da área de humanas: 70% dos 10 mil novos doutores/ano são de humanas. Será que as crianças que estavam no cinema lembraram que historiadores, antropólogos e sociólogos também são cientistas?

A parte que me deixou feliz de “Tá Chovendo Hambúrguer” é que o estereótipo da jornalista é o de uma mulher bonita (hehe). Mas considerando que sou uma jornalista e uma cientista… devo ser uma coisa bem bizarra. Pelo menos aos olhos de um cineasta norte-americano!

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Amanhã tem Selton Melo em dose dupla

Publicado por sabine righetti em 25/06/2009

seltonEstreiam amanhã dois filmes nacionais com Selton Melo: “Jean Charles” e “A Erva do Rato”. E, como disse Luiz Zanin, crítico do Estadão, mais diferentes entre si não poderiam ser. “Jean Charles”, filme coproduzido pelo Brasil e a Inglaterra, tem Selton Mello no papel principal e aborda a história do brasileiro assassinado pela polícia londrina no metrô de Londres, em 2005, confundido com um terrorista.

Já  “A Erva do Rato” é um filme de Julio Bressane daqueles polêmicos, de prender a respiração. Como todo diretor, Bressane também tem sua pupila e traz de novo Alessandra Negrini no elenco (ela esteve também em “Cleópatra”, filme de 2007 vaiado pelo público mas vencedor da 40ª edição do Festival de Brasília).

Vale lembrar que Selton Melo está também nos telões desde o início de junho com “A mulher invisível”, de Claudio Torres. A comédia, bem clichê (e machista), tem Luana Piovani como a gostosona Amanda, que aparece em quase todas as cenas apenas de calcinha e sutiã. Obviamente não é meu tipo de filme (apesar de que – não posso negar – dei umas boas risadas), mas vale destacá-lo também para mostrar a incrível versatilidade de Selton Melo.

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A corrupção é no Senado e a culpa é da imprensa.

Publicado por sabine righetti em 22/06/2009

politico e reporterFalem o que quiserem falar, critiquem sem piedade, arranquem-nos a obrigatoriedade do diploma. Mas uma coisa é certa: o que seria deste país sem a nossa imprensa? Digo isso com base nos acontecimentos políticos que machetaram os jornais na semana passada. Vamos aos fatos:

- O presidente da Câmara do Senador, José Sarney (PMDB-AP, apesar de morar no Maranhão e não no Amapá), é acusado de nepotismo por ter empregado, direta e indiretamente, vários membros de seu clã no governo federal.  Indignado pelas acusações da mídia, o Senador revelou: “A crise do Senado é do Senado, não é minha”.

(Ah, gente, o aquecimento global é um problema do planeta, viram? Não é meu, não!)

- Questionado sobre os acontecimentos com a família Sarney, o presidente Lula teve a infelicidade de dizer que “Sarney tem uma contribuição para a história do país suficiente para não ser tratado como uma pessoa comum”. Opa! E quem é pessoa comum, então?!

- Depois da confusão causada pelos fatos acima mencionados e pelas infelizes afirmações, quem levou a culpa da crise do Senado? A MÍDIA. Sim, a acusada pela bagunça foi da mídia.

Lula disse que os jornalistas têm que ter calma, apurar os fatos direito sem sair por aí “causando”, escrevendo precipitadamente. Um dinheirinho desviado ali (Sarney pediu desculpas ao país há umas semanas por um recurso que recebia para auxílio-residência em Brasília – sendo que ele tem uma casa lá e, então, não poderia receber verbas), uns sobrinhos trabalhando por indicação acolá… que problema tem, não é mesmo?

Pois é. Como definiu uma publicidade de um jornal diário, para eles, lá de Brasília, “nós somos a mosca que pousou na sua sopa”. “Nós somos a mosca que perturba o seu sono. E não adianta nos dedetizar, pois virão outras no nosso lugar!”

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Che – parte um é bom, mas cansativo e mitificado.

Publicado por sabine righetti em 08/04/2009

Assisti, finalmente, Che – parte um, filme autobiográfico euro-estadunidense sobre o argentino (interpretado por um ator porto-riquenho) que comandou, na década de 50, a revolução cubana. Uma salada de nacionalidades.

Benício del Toro, o Che do filme, teve uma atuação fantástica, como era esperado do ator que despertou atenção internacional em Traffic (2000), do mesmo direitor de Che – parte um (Steven Soderbergh). E interpretar Che Guevara é um grandessíssimo desafio – o risco de Benício ser esmagado pela intensidade e pela memória do personagem em questão – um dos maiores revolucionários de todos os tempos – era grande. O Che de Benício não é assim um Milk de Sean Penn, mas convence (considerando, principalmente, que Milk era uma personalidade pouco conhecida fora do EUA e Sean praticamente construiu a sua memória). E convence bem.

 

O filme de Che traz a visão de um homem heróico, politicamente correto, que caminhava quilômetros montanhas acima, mesmo sendo asmático, carregando feridos em batalhas (a regra era não os deixar para trás). São longos minutos subsequentes com essas cenas. Aliás, o filme todo tem longas cenas no cenário da floresta, o que o torna cansativo para determinados públicos (bem diferente da abordagem lúdica de Diários de Motocicleta, 2004, sobre a viagem que Che fez pela América Latina – e que o motivou para a revolução). Che, o do filme, era perfeito. E não digo que o Che real não o fosse (ele é um dos meus maiores ídolos!) Mas, no cinema, e nas artes em geral, é preciso tomar um certo cuidado com a mitificação daquele que, afinal, era um ser humano.

Mas até aí, tudo bem.

O filme pecou de verdade em outras partes. Fidel Castro aparece e desaparece do filme como o coelhinho de Alice no país da maravilhas (aquele que corre dizendo “é tarde, é tarde…”). Passa correndo e some. Aliás, quando fica decidido que, afinal, Fidel seria o chefe de todas as guerrilhas contra o ditador cubano Batista, Fidel some de vez do filme. Para onde ele teria ido?

E o irmão de Fidel, Raul Castro (hoje presidente cubano), some junto com ele. Interpretado pelo nosso Rodrigo Santoro, o personagem de Raul deixou a desejar. Não pela atuação de Rodrigo que, aliás, é muito boa (apesar do espanhol carregado de acentos portugueses). Mas aquele Fidel barbudo ao lado do Che igualmente barbudo, perdidos no meio da floresta, pareciam não combinar com um Raul bonitão e de barba praticamente feita. Em outras palavras, eu diria que a beleza de Santoro atrapalhou.

A crítica completa de Che – parte um deve ser feita quando finalmente sair a parte dois. Mas, por enquanto, o filme vale principalmente para divulgar uma história que muita gente sabe que existiu, mas pouca gente sabe exatamente o que foi.

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Carnaval, Oscar e Nelson Rubens.

Publicado por sabine righetti em 25/02/2009

Como ainda estou me recuperando de uma cirurgia feita há mais de 45 dias, fiquei em casa neste feriado de Carnaval, alternando entre assistir filmes concorrentes ao Oscar (e o próprio Oscar) e os desfiles das minhas escolas preferidas.

Os filmes eu comentarei em futuros posts individuais. Mas em relação ao Oscar, o que mais me impressionou foi o quanto a premiação foi ignorada. Pela primeira vez desde que me conheço por gente (como diriam meus parentes italianos), a Rede Globo não transmitiu o evento para dar lugar às escolas de samba. Aliás, não teve nem Jornal Nacional na segunda-feira. Nada acontece no país do Carnaval na segunda-feira de Carnaval – a não ser o próprio Carnaval!

Bom, mas Jornal Nacional à parte, a não-transmissão do Oscar incluiu também a não divulgação do evento e nem dos premiados. Tenho amigos que nem sabiam que o Oscar seria no domingo, 22, pois estavam acostumados com as chamadas da Globo que, desta vez, não aconteceram. Bom, mas concordo com as premiações feitas pelo Oscar, das quais acertei quase todas as minhas apostas feitas num post anterior ao evento – só errei melhor ator (ok, o Sean Penn teve um excelente intepretação em Milk e a academia estava magoada com o sumiço de Mickey Rourke, em quem apostei) e melhor roteiro (novamente tinha apostado em Milk, mas ficou com Quem quer ser um Milionário). Até aí, tudo normal.

Já o desfile das minhas escolas preferidas, meu segundo passatempo neste feriado, prefiro não comentar (a X-9 ficou sem sexto lugar!) E já sei que a Grande Rio também não vai liderar, pois a preferida dos cariocas é a Beija-flor. Tudo bem que não tenho critérios muito válidos para avaliar as escolas, mas é como time de futebol: o meu sempre está certo e deve ganhar uai! (por falar em critérios, tenho uma conhecida que faz curso para jurada de escola de samba. Acredite se quiser!)

Mas o que quero comentar é a cobertura dos desfiles!

Assistindo aos desfiles, acabei caindo na Rede TV, em que o Nelson Rubens comandava ao vivo uma cobertura dos bastidores dos desfiles. O que eu vi foi um show de horror: repórteres totalmente despreparados tanto para fazer entrevistas, quanto para entrar ao vivo na TV. Alguns exemplos:

- Certa hora, um repórter encontra a Beth Carvalho, que é mangueirense mas neste ano foi homenageada pela Imperatriz Leopoldinense. Então, pergunta: “Nesse ano você não vai puxar o samba da Mangueira?”. Ela, nitidamente irritada, responde: “Eu nunca puxei o samba da Mangueira. Quem puxa samba são os puxadores de samba e eu sou cantora”. Para completar, os créditos da entrevista traziam uma frase que a própria Beth negou: “Beth Carvalho troca Mangueira pela Imperatriz”. Sob esses créditos, Beth Carvalho dizia que não estava trocando de escola e que continuava sendo mangueirense. Enfim, uma bagunça!

- Monique Evans estava dando uma de repórter e só deu bola fora, como era de se esperar. Ao encontrar a Dira Pais, começou a entrevistá-la e olhava ao redor, sem prestar a mínima no que a atriz dizia. Até que Dira perguntou, muito sabiamente: “Você está procurando alguém?” Afe! Não satisfeita, Monique encontrou outra atriz, que não lembro o nome, puxou-a para uma entrevista e começou a falar de si própria. A atriz ficou com uma cara de tacho, olhou para a câmera, mandou um beijo e saiu fora. Claro.

- Iris Stefanelli, ex-BBB 8, comanda o programa com Nelson Rubens e também estava ao vivo na cobertura. Quando ela encontrou dois igualmente ex-BBBs, ela fez algumas perguntas para um deles, que respondeu a todas. Depois, ela virou para o outro e disse: “E aí?” Peraí: “E aí” é pergunta que se faça ao vivo? É claro que ele não respondeu nada e, sem saber o que fazer, ela começou a dançar (!!!)

- Para terminar: um dos repórteres era Léo Aquilla, uma Drag Queen. Ao entrevistar um famoso, que não sei quem é, a Drag olhou para a namorada dele e, ao vivo, disse: “Nossa, como você é despeitada”. E virou-se para o rapaz: “Você precisa pagar um silicone para ela”. Isso nada mais é do que a mera reprodução da ideia de que toda mulher deve ter peito artificial r deve ser um objeto ao homem. Indo além, por que ela não disse para a própria mulher pagar a cirurgia para ela mesma?!

É gente, isso que dá ter um programa de entrevistas em que os repórteres são tudo, menos jornalistas. Como diria o próprio Nelson Rubens: eu aumento, mas não invento!

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