Há umas semanas eu cancelei meu celular pessoal e troquei de operadora, adotando agora o DDD 11 (como no meu celular de trabalho). Esse procedimento simples teve toda uma simbologia e grande uma dor de cabeça. A parte poética foi o rompimento do meu último vínculo com o interior de São Paulo, onde morei por 10 anos: só restava o número do meu celular. A dor de cabeça ficou por conta do cancelamento da linha: foram várias ligações e idas a operadora até conseguir o que eu queria.
Enfim, deu certo e ainda acabei comprando um blackberry que facilitou muito a minha vida (e aumentou um pouco, confessadamente, a minha carga de trabalho).
Agora, descobri que meu novo número de celular paulistano 7433etc era de alguém chamada Marli. Já atendi várias ligações para a Marli. A maioria de mulheres com voz de gente nova. Algumas já atendem e começam a falar: “Marli, você não sabe o que aconteceu!” Aí eu tenho que cortar bruscamente dizendo que, puxa, não sou a Marli.
Fico pensando como seria essa Marli. Imagino-a loira e sorridente, como a única Marli que conheço ao vivo e a cores. Ela deveria ser popular, já que recebe tantas ligações. E desligada, afinal, nem avisou seus contatos – ou parte dos contatos – sobre o cancelamento de sua antiga linha que, agora, é minha. Será que a Marli mudou para o interior e, por isso, também mudou de número? Ou mudou de país? – essa, aliás, foi a desculpa que usei para enfim conseguir cancelar meu antigo celular. “Vou sair do país sem previsão de volta”, disse.
Marli, Marli, assim não pode. Como é que as pessoas vão te achar agora? Enfim, seguirei atendendo as suas ligações com a angustiante sensação de impunidade por não poder ajudar o ligante. Cabe a mim apenas dizer que, uma pena, esse não é mais o celular da Marli.