sabine righetti

Blog de uma jornalista que não se cansa de escrever.

O jogo do ganha-ganha

Posted by sabine righetti em 29/04/2010

O esquema é o seguinte: o cara abre uma empresa. A empresa cresce. Ele paga salários no piso do piso a seus funcionários que, sem opção, continuam trabalhando pra ele. Aí, ele entra na onda da responsabilidade socioambiental, porque isso pode dar descontos em impostos e ainda dá insumos para o marketing da empresa promover a marca e vender mais (e ter mais lucro). Aí o jogo do ganha-ganha por parte dos empresários não tem mais fim.

Peraí? Eu disse responsabilidade socioambiental? Onde?

Acabo de participar de um evento que reuniu centenas de empresários preocupados em inovar de maneira sustentável. Uns são do bem e mostram consciência ambiental, outros – principalmente os especialistas no assunto e autores de livro – nem tanto. A preocupação é com o lucro e só. Óbvio, eu não deveria ficar surpresa com isso, certo? Errado, principalmente quando se trata de responsabilidade “social”.

A reflexão que faço é a seguinte: o cara tem uma empresa com um monte de funcionários que compõe a base da pirâmide e que mal consegue colocar comida no prato dos vários filhos. Provavelmente, os filhos de boa parte dos funcionários da empresa dele – em especial dos que desenvolvem as atividades “de baixo escalão” – passe o dia nas ruas. Com muita sorte, eles freqüentam uma escola pública em meio período do dia. Aí o empresário vai lá e… monta uma ONG assistencialista? E vende a imagem de que a empresa é atuante na favela?

Não seria mais lógico pagar melhores salários para que os próprios funcionários resolvessem os problemas dos seus próprios filhos ao invés de terem que recorrer a ONGs que, afinal, dão desconto em impostos para empresas?

Não sou contra ONGs (aliás, participo ativamente de duas!), mas sou contra o jogo de ganha-ganha por parte dos donos de empresa. E acho que uma lógica de melhores salários funcionaria melhor do que uma lógica assistencialista. Que tal uma política pública que dê desconto de impostos para as empresas não tenha diferenças salariais superiores a dez vezes do faxineiro ao presidente? Fica a dica.

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Ensaio sobre a ciumeira (porque ensaio sobre a cegueira já existe)

Posted by sabine righetti em 29/04/2010

 Existem dois tipos de ciúmes: com motivo e sem motivo. O primeiro – ciúmes que todas pessoas “normais” podem sentir sem culpa – acontece quando você se relaciona com uma pessoa que, de fato, dá motivos pra provocar tal sentimento. É o caso do cara ou da mulher que, sabidamente, não nasceu para ser monogâmico. Se você se relaciona com uma pessoa que só faz você passar mal de raiva pela compulsão à poligamia, a solução é simples: separe. Ok? Já o segundo “tipo” de ciúme – sem motivo – acredito que seja muito mais comum que o primeiro e, claro, muito mais maluco…

O ciúme sem motivo surge de uma sensação de posse que uma pessoa tem sobre a outra. Pode ser ciúmes do irmão, da mãe, do amigo e, mais comum, do parceiro ou parceira. A pessoa de repente cisma com uma situação que lhe desperta o ciúme sem motivo, entra numa espécie de surto, mentaliza coisas mirabolantes e surta assim, sozinha, em seu próprio pensamento. Algo do tipo: ele ficou olhando para aquela capa de revista que fala sobre a Amazônia porque ele deve ter tido uma história de amor em Manaus quando morou lá há quinze anos. Sei lá, algo assim. Uma viajação pura.

O problema do ciúme sem motivo é o simples fato dele não ter motivo. E, aí, também não tem solução. Sofre o ciumento, sofre o causador da ciumeira. Como diz o outro, o ciumento – sem motivo, acrescento eu, – fica cego porque não enxerga a realidade ao seu redor. Mergulha numa fantasia própria e aí, nossa, tem que se esperar ele voltar à tona…

Há um conto do Nelson Rodrigues, que não lembro o nome (sempre esqueço de fichar os textos que gosto na literatura, desculpem!), que trata do ciúme cego sem motivo e desse mergulho na própria loucura. Aliás, o ciúme sempre foi um fio condutor de boa parte das histórias do Nelson – o que mais poderia ser tão perfeito para terminar as histórias em tragédias, como ele gostava?

Bom, a história era assim:

Havia um casal formado por uma mulher, dona de casa, e por um homem trabalhador (provavelmente funcionário público) supercertinho. Aliás, supercertíssimo. A mulher, ciumenta cega e sem motivo, cisma que o cara está a traindo e todos os dias pergunta: “Fulano, você me trai?” Ele responde que não. Ela, que acredita que o marido está mentindo, resolve tomar atitudes radicais até que o marido conte a suposta verdade sobre a suposta traição: para de comer, de sair, de sorrir… Sexo, então, nem pensar! Até que um dia o cara, cansado, chega em casa e dispara: “Ok, Beltrana, eu traio você”, achando que assim a mulher sossegaria. E a mulher, então, se mata.

Ufa! Exagero? Não. Trata-se de um exemplo extremo de um típico ciúme cego e sem motivos. Depois dessa, e de outras, eu só digo uma coisa: eu adoro enxergar! Enxergue também.

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Até que Saturno passe.

Posted by sabine righetti em 21/03/2010

Dizem os astrólogos que a cada 29 anos entramos numa crise de amadurecimento. Isso acontece, de acordo com a astrologia, porque Saturno, que é um planeta pesado e com, teoricamente, forte influência na vida das pessoas, completa um ciclo a cada 28 anos e retoma o início do seu novo ciclo no 29º ano. A psicologia também diz que em torno de 30 anos – quando, em geral, as pessoas se casam e têm filhos – e aos 60 – quando se aposentam e se tornam avós – há uma espécie de crise de identidade, uma nova fase de amadurecimento e uma intensa reflexão sobre as conquistas da vida até então.

Sou cética, mas também sou curiosa. E como fiz 29 anos na última sexta-feira, resolvi ir atrás do que já escreveram sobre essa fase da vida, seja na astrologia, na mitologia ou na ciência. Li muito e resolvi pensar no que eu fiz da minha vida nesses 29 anos. São as maltraçadas linhas que seguem abaixo.

Descobri que sou ansiosa por natureza, e não só estou ansiosa nesta fase “saturnina” quando, teoricamente, a ansiedade se intensificaria. Sempre vivi como se o mundo fosse acabar amanhã, como se eu não pudesse deixar nada para amanhã. Todos os conflitos têm que ser resolvidos hoje. Todas as decisões devem ser tomadas agora. O trabalho eu devo terminar hoje – sem essa de ir dormir, acordar mais cedo no dia seguinte e terminar amanhã. O “hoje” é minha única garantia. Amanhã não sei como será. E sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo no “hoje”. Quero trabalhar hoje, mudar de cargo hoje, estudar hoje, viajar hoje, viver um grande amor hoje. Tudo ao mesmo tempo e intensamente. E tudo hoje.

Viver o “hoje” da maneira como eu vivo significa que tudo tem que ser intenso, tudo tem que ser romântico. Tenho uma visão romântica das pessoas, das relações e da vida. Vejo as cenas com trilha sonora, idealizo diálogos, sonho com momentos únicos. Imagino um mundo em que, romanticamente, não tenha conflitos. Imagino um amor que não tenha cobranças e que seja eterno. Imagino uma vida linda, longa, romântica e intensa. E quero isso hoje.

Aos 29 anos, não encontro exatamente uma crise de identidade. Amo minha profissão, amo o que eu faço, amo o que estudo. Minha crise talvez seja uma espécie de intensificação da minha ansiedade já natural. Quero ter mais tempo para ler os livros que ainda não li, ver os filmes que ainda não vi, estudar as línguas que ainda não falo, conhecer os lugares que eu não conheço. Quero viver o amor intensamente – e romanticamente. Minha crise atual talvez seja a descoberta de que o que eu quero só é possível no plano ideal… e então eu saio da astrologia, saio da psicologia e entro numa discussão filosófica. E a coisa complica.

Aos 29 anos eu continuo sem saber exatamente o que quero da minha vida. Mas a única coisa que me conforta é que eu já sei muito bem o que eu não quero. E isso é um grande avanço para o início desse novo ciclo.

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Sobre o dia internacional das mulheres

Posted by sabine righetti em 08/03/2010

Eu já ganhei menos que um homem que tinha a mesma função que eu. Eu já recebi uma proposta de emprego de alguém que perguntou se eu pretendia me casar, “pois não se deve contratar mulheres casadas que, se trabalharem fora, causam a destruição da família”. Eu já fui (muitas vezes) paquerada em situações de trabalho – e já evitei expor minha opinião publicamente porque ser paquerada me constrangeu. Eu já ouvi que fulana só tem o cargo tal porque sai com o chefe (sabendo que ela tem o cargo tal porque ela é competente!). Eu já convivi com uma família islâmica durante um intercâmbio e fui proibida de sair de casa sozinha. E já saí de casa sozinha em uma região em que uma mulher fazer isso é proibidíssimo.

Já acharam graça porque eu gosto de carros (e sempre gostei). Já duvidaram que sei trocar pneus. Duvidaram mais ainda quando eu disse que um dia teria um jipe. Quando o comprei, duvidaram que eu saberia dirigi-lo. Já ensinei várias pessoas a dirigir (incluindo amigos meus – sim, homens inclusos) e já fiz muuuuitas balizas dificílimas sob os olhares descrédulos de pedestres do sexo masculino. E quando conto isso, ninguém acredita…

Estranhei quando senti medo de, um dia, ter filho. Não é a lei natural? Pode se ter medo de parto e de ter que ficar acordada a noite toda dando de mamar quando, na verdade, minha vontade é terminar a minha tese? Estranhei – sim, a mim mesma, – quando decidi que minha profissão seria mais importante que tudo. Isso não poderia ser normal. Não para uma mulher!

Já levei duas moças que trabalharam em casa à Delegacia da Mulher depois de terem apanhado de seus companheiros – e vi uma delas ser ameaçada de morte após a denúncia. Elas entraram nas estatísticas de que uma em cada quatro mulheres no mundo foi ou será agredida pelo próprio companheiro. Eu já me indignei, já chorei, já sofri, já abracei causas, fiz campanhas, lutei para que as mulheres percebam o que acontece ao seu próprio redor. Muitas não percebem… ou não querem perceber.

Brigo, critico, mando cartas, reclamo e escrevo aqui no blog quando vejo a visão machista do mundo predominar na mídia. “Isso é coisa de homem, isso é coisa de mulher”, diz uma reportagem. Jornalistas questionam a plástica da Dilma, mas não questionam a “beleza” dos candidatos homens à presidência. Questionam quando Madonna aparece com um namorado mais novo, mas não fazem o mesmo quando Mick Jagger namora uma menina da idade da filha. Inquietam-se quando uma atriz deixa transparecer as madeixas grisalhas, mas acham bonito o homem de cabelos cinza. Atiçam-se quando uma mulher de 50 anos está solteira (“solteirona”), mas elogiam um solteirão da mesma idade…

E concluo que o que está na mídia é o reflexo da nossa sociedade. E a nossa sociedade é desigual.

Queria ver o dia em que as diferenças de gênero simplesmente não existissem, em que homens e mulheres pudessem fazer as mesmas coisas, ter os mesmos cargos, os mesmos salários. Queria assistir o dia em que não seria mais considerado “heróico” as mulheres acumularem jornadas de trabalho: seria considerado abuso. Queria – e desejo isso com todas as minhas forças – alcançar o momento em que o dia internacional das mulheres não fosse mais necessário. Aí sim a minha causa estaria ganha.

[@binerighetti não se cansa de lutar pela fim da desigualdade de gênero – e de todas as demais desigualdades. E @binerighetti agradece muito o apoio que tem do namorado nesta e em todas as suas causas]

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Oscar 2010 – faça suas apostas!

Posted by sabine righetti em 06/03/2010

Como cinéfila que sou, todos os anos faço uma maratona nos cinemas para conseguir assistir em tempo os filmes concorrentes nas grandes premiações como Oscar, Cannes, Festival de Berlim e Globo de Ouro. Na maioria das vezes, não concordo com os vencedores escolhidos e sempre perco os bolões que participo… Mesmo assim, sigo fazendo minhas apostas a partir de critérios subjetivos que não coincidem com os mercadológicos e, porque não dizer, políticos das grandes premiações do cinema.

Minha lista de top os the pops do Oscar 2010 segue abaixo. Qual é a sua?

Melhor filme – eu espero muito que AVATAR não ganhe melhor filme, pois apesar dos milhões de dólares despendidos por James Cameron (diretor de TITANIC, 1997) e dos milhões de espectadores que rendeu, o longa é “apenas” uma reunião de grandes efeitos especiais. Não há um roteiro fantástico, nem um enredo incrível e nem atuações brilhantes digno de melhor filme. Por isso, aposto em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Ousadíssimo, ao ponto de ter assassinado Hitler em plena sessão de cinema. Merece.

Melhor ator – aposto em Jeff Bridges, protagonista de CORAÇÃO LOUCO que, aliás, leva o filme nas costas. Se não fosse ele, não haveria bilheteria afim de ver a história de um músico country decadente e em crise. Jeff está incrível, ao ponto de me fazer acordar, no dia seguinte de ter visto sua atuação, com vontade de ouvir Garth Brooks. Collin Firth, de DIREITO DE AMAR, filme de Tim Burton, também merece, mas creio que não leva. Por favor, academia, não premiem Morgan Freeman, o Mandela de INVICTOS. A única coisa que ele soube fazer para personificá-lo foi o “r” africano (“sorry” virou “sóri”). E só.

Melhor ator coadjuvante – Sem sombra de dúvidas, o prêmio vai para Christoph Waltz, o caçador de nazistas de BASTARDOS INGLÓRIOS. Nesse, eu aposto de olhos fechados. O cara rouba a cena no filme e faz um show impressionante. E se a academia der o prêmio para outro, sério: eu nunca mais assisto o Oscar.

Melhor atriz – gostaria muito que Carey Mulligan, de EDUCAÇÃO, levasse a estatueta. Aposto nela. Mas algo me diz que vai pra Meryl Streep, de JULIE&JULIA. Ela faz o filme sozinha! E, como vocês sabem, a academia adoro premiar a Meryl Streep.

Melhor atriz coadjuvante – nenhuma das concorrentes super me convenceu. Penélope Cruz, de NINE, não leva porque já levou no ano passado com VICKY&CRISTINA EM BARCELONA… Ficarei com Gabourey Sidibe, de PRECIOSA.

Melhor animação – UP! A animação que me fez chorar – e muito. Uma graça, perfeita para qualquer idade. Leva a estatueta!  (mas também não merecia ter sido indicada a “melhor filme”, né?)

Direção de arte – AVATAR, claro. Levará essa e todas as demais categorias relacionadas aos efeitos especiais. E está imbatível mesmo.

Costume Design – COCO ANTES DE CHANEL – Catherine Leterrier. Afinal, é um filmão sobre uma das mais marcantes estilistas da história. Vale o prêmio.

Direção – aposto em Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS, para melhor filme e também melhor diretor. Mas pode ser que a academia faça algo parecido com o que fez em 2006, quando deu melhor diretor para BROKEBACK MOUNTAIN e melhor filme para CRASH. Nesse caso, Kathryn Bigelow levaria por GUERRA AO TERROR.

Melhor documentário – não consegui assistir nenhum! Mas depois do episódio da Orca que matou a treinadora no SeaWorld, creio que THE COVE, de Louie Psihoyos e Fisher Stevens, ganhou repercussão suficiente para levar a estatueta.

Edição de imagens – AVATAR (Stephen Rivkin, John Refoua e James Cameron).

Melhor filme estrangeiro – eu quero MUITO que o argentino O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, de Juan José Campanella, leve (escrevi sobre o filme, leia aqui). Torço por ele e aposto nele. Mas algo me diz que a estatueta vai para o alemão A FITA BRANCA, de Michael Haneke.

Música original – aposto em “The Weary Kind”, tema de CORAÇÃO LOUCO, de Ryan Bingham e Bone Burnett.

Edição de som – aposto em AVATAR novamente. Prêmio vai para Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle.

Efeitos visuais – alguém tem alguma dúvida de que AVATAR ganha? Por Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones.

Melhor roteiro adaptado – difícil. Gostaria que EDUCAÇÃO levasse e vou apostar no Nick Hornby. Mas o roteiro de AMOR SEM ESCALAS parece que está sendo bem cotado…

Melhor roteiro original – Quentin Tarantino, de BASTARDOS INGLÓRIOS. Ou será que os irmãoes Coen levam de novo – desta vez por UM HOMEM SÉRIO?

[@binerighetti não entendeu porque o Oscar desta ano tem 10 indicados a melhor filme!]

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